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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mulher... Cantada Assim.


Sempre e sempre esta pérola. Voltar a Delírios, Delícias é sempre um regresso a mim. A escuta relembrada fez-me perceber como pode ser tão certeira esta ode.

Para ouvir e decorar.

A todas as mulheres e respectiv@s amantes.


Mulher da Vida


Mulher é muito mais que ter um sexo

É mais que ser do homem complemento

É mais que ser o avesso e o diverso

Mulher é muito mais que sofrimento

Mulher é muito mais que companhia

É mais que ser sujeito ou objecto

É mais que ser amor e alegria

Estrela Montenegro do universo


Mulher é muito mais que mãe e filha

É mais do que eu penso do infinito

É mais que ser amante ou rainha

Mulher é muito mais do que o bonito

Mulher é a vida

A vida é mulher

Toda mulher é mulher da vida


Milton Nascimento / Fernando Brant

(também na voz de Simone)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Simbolismos da Aliança


O que está em causa no debate em curso sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo não são os comportamentos nem os factos mas algo mais complexo: o poder das palavras e o edifício simbólico que elas constroem. E isso está bem patente no projecto de lei do PSD, que opta por chamar “união civil registada” e “parceiros” ao que os outros chamam “casamento” e “cônjuges”. E isto porquê? Porque uma parte da população (sobretudo, a mais católica) se sente ferida com a linguagem. Se as regras da mobilização militar nos estados unidos proibiam, até há pouco tempo, a declaração reflexiva “Eu sou homossexual” era porque isso podia ser interpretado como uma tentativa de sedução ou como uma agressão. Aceder assim a tão poderoso e antigo edifício simbólico (o casamento) pode parecer uma revolução, mas é uma revolução conservadora. Todos nos devemos regozijar com a resolução de problemas práticos e legais. Mas é preciso não esquecer que integrar a ordem do discurso a que pertencem as representações sociais do casamento significa uma submissão à linguagem que sempre procedeu pela violência e pelo poder discursivo de impor uma definição de homossexual.


Ao Pé da Letra

Sobre a ordem e o poder da palavra “casamento”
António Guerreiro
Expresso – Actual – 09 de Janeiro 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Vergílio


Porque tenho francas dúvidas de que o Via Fáctea pudesse recomeçar-se em 2010 com palavras mais sábias do que estas, num mundo e num país cada vez menos sábio.

Todo o país está podre de estagnação, vós moveis um pé no lodaçal e ficais estoirados do esforço ao fim do dia. Mas nunca vos perguntais para quê, nunca vos perguntais o que isso quer dizer, nunca vos perguntais com que direito haveis de ser boi até ao fim da vida. Parai, ó estúpidos, suspendei um momento esse vosso trabalho animal e perguntai-vos se é essa a vossa vontade, se um instante da vossa tarefa cavalar é isso com que sonhais para vosso prazer. Porque é que não fazeis aquilo que quereis? Porque é que não ergueis o vosso berro de revolta? Não falo apenas dos que suam que se fartam por um bocado de pão. Não falo apenas dos que amocham como bestas por uma tigela de caldo. Falo de vós todos, dos honrados pais de família, os honrados funcionários com um ordenado a tanto a hora da cronometragem, os honrados comerciantes de pele esverdeada dos dias sem sol, as dignas esposas zeladoras da sua castidade até que à noite o marido lhes suspenda o zelo, as donzelas com o desejo fechado a cadeado, os politiqueiros de opinião trancada e partidária, os polícias do zelo pistoleiro, os futebolistas a tanto o pontapé, jornalistas, médicos, advogados – toda a imensa manada trabalhadora que se abate sobre o país e lhe entala a movimentação. Mas falo mesmo dos tubarões do capital, banqueiros atolados em moedas que são as fezes, o excremento da ganância e da vileza, grossos empresários que quereis empresariar o mundo, o céu com a vossa fumarada, as almas com as vossas cadeias e os rios e os peixes deles com a vossa matéria excrementícia...


Vergílio Ferreira
em nome da terra

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quem continua a dizer que é feio!!!????



Depois de já ter dito isto, isto ou isto, há-de estar para vir quem me convença, olhando a foto publicada numa excelente reportagem sobre a Diva no Ípsilon de hoje, que fumar é feio!
Venham os argumentos (e, claro, não vale contra-atacar com o facto de poder matar, que contra isso obriga a lógica que nada diga).

Linda!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Arejamento Democrático


“… os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha…; [a História de Portugal foi sempre] repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião”.

Jorge de Sena – Sermão da Guarda, 1977

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

My Diva


E quero lá saber de juízos sobre a "parolice", o "envelhecimento", a "fraca qualidade musical", a "decadência" ou outras balelas a respeito de uma das minhas divas!
Clico aqui quando me dá na realíssima gana e é um facto que fico melhor.
Sempre linda de morrer, sempre esta voz achocolatada que me faz falta.
You're back, dear Withney! Yeahhhhhh!

domingo, 7 de junho de 2009

Porto by Night


Breve história: saída de casal gay à noite do Porto. Noite sem novidade, porque já não pode tê-la. Aparece um rapaz alcoolicamente dançante, tão bem disposto quanto lúcido. Quer, nessa boa disposição, oferecer uma dedicatória, escrita num papel qualquer, desde que possa escrevê-la. Transforma a dedicatória em palavras para o casal. Segue-se um laivo de mais acesa lucidez por parte do rapaz: “na noite é isto, ou fodes ou estás desesperado por foder e não consegues; porque a vida é assim – ou sublimas ou destróis”.

Valha-nos tal riqueza na perpétua pobreza da noite.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Genetismo


Porque tantas vezes nos esquecemos do que há tanto tempo está já escrito, fica Genet, na sua sempre tão bela escrita. Porque a sua vitória foi verbal, assim o disse; porque da sumptuosidade das palavras se socorreu; porque ter-se socorrido foi uma bênção para nós, se abençoados formos na compreensão de que a masculinidade nunca passou de um mar de fragilidades, de uma prisão de que só escapamos em ballet.


Ei-lo, há mais de 50 (cinquenta!) anos, numa passagem como só ele saberia tecer, como só ele saberia construir a partir da vida que reservada lhe esteve. Para fazer-nos chorar… e por mais.

Culafroy passeava entre lençóis, descalço. Vivia minutos leves como minuetes, feitos de inquietação e ternura. Chegou a aventurar-se num passo de dança em pontas, mas os lençóis formavam paredes suspensas e corredores, os lençóis imóveis e dissimulados como cadáveres uniam-se e podiam encarcerá-lo e estrangulá-lo. (…) Se tocasse o chão apenas com um gesto ilógico do pé esguio estendido, poderia tal gesto fazê-lo soltar-se, deixar a terra e atirá-lo por entre mundos de onde não voltaria, ao espaço onde nada poderia fazê-lo parar. Pousou de planta inteira o pé no chão, para lhe conferir uma segurança maior. (…) Aquela criança que nunca tinha visto um bailarino, nunca tinha visto teatro nem actor, com um sentido divinatório espantoso compreendeu um artigo de página inteira que só tratava de figuras, entrechats, battus-jettés, tutus, sapatilhas, tela, rampa e ballet. Pelo aspecto da palavra Nijinsky (a haste do N, a descida da argola do j, o salto da argola do k e a queda do y, forma gráfica de um nome que parece empenhado em desenhar o impulso com recaídas e pulos no palco de saltador que não sabe sobre qual dos pés pousar) adivinhou a leveza do artista, como um dia virá a saber que Verlaine não pode deixar de ser um nome de poeta-músico. Aprendeu sozinho a dançar, como aprendera sozinho a tocar violino. Dançou, portanto, como tocava. Todos os seus actos foram servidos por gestos, não ao serviço daqueles, mas de uma coreografia que lhe transformava a vida num ballet perpétuo. Rapidamente se pôs em pontas e em todo o lado: no talho, quando apanhava achas de lenha, no pequeno estábulo, debaixo da cerejeira… Punha os tamancos de lado e dançava em cima da erva com peúgas de lã preta, de mãos presas à ramaria mais baixa. Na vida, povoou os campos com uma multidão de figuras que queriam passar por bailarinas de tutu de tule branco, que se mantinham um menino de escola pálido, de bibe preto, a procurar cogumelos e dentes-de-leão. (…)


Nossa Senhora das Flores

Jean Genet, 1951

(Difel, 1987; Trad: Aníbal Fernandes)

Plumíssimas Revoluções


Houve um post que me deu mote. Mote para dizer algumas coisas consonantes com a linha condutora desse mesmo post. Depois, percebi que as coisas que queria dizer estavam já ditas numa produção do país de nuestros hermanos, que ao que parece estão a fazer com que não passe de uma baboseira a velha frase de que dali nem bons ventos, nem bons casamentos, a julgar por provas (como esta, ou como esta) contrárias à baboseira.


Das palavras de Ricardo Lammas e Javier Vidarte, retiradas daqui, me faço valer em apoio à (sobre)vivência tão bem ilustrada pelo limbo entre o babuíno e o ser humano, tão bem apontada como desumanamente erguida sobre a esfarrapada promessa que julgávamos haver na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ora, leia-se Llamas e Vidarte:

…os animais já têm a sua Declaração Universal dos Direitos do Animal desde 1977 [pelo que se sublinha a pertinência dos 30 anos referidos no post-mote]. Quase se poderia dizer, ironicamente, que os animais nos levam uma dianteira, ainda que nós [, pessoas LGBT,] não queiramos a nossa própria declaração de direitos humanos e civis, mas em vez disso queiramos é não conformar-nos com o que vale para toda a gente, porque não é para toda a gente que afinal vale. (…) Observamos um eco distante, um certo paralelismo entre a tónica geral e os conteúdos da Declaração Universal dos Direitos do Animal e o que se vem fazendo connosco e com os nossos direitos, com o modo como nos concedem amavelmente e num acto de grande generosidade – que grande é o coração heterossexista! – estes direitos.

Ao proporem-nos que na referida Declaração Universal dos Direitos do Animal exercitemos a substituição da expressão “animal” por “não-heterossexual”, Llamas e Vidarte deixam-nos a pensar sobre o quanto há por fazer e dão inteira razão ao que no mencionado post-mote podemos ler. Para acabar, deixo ainda palavras dos mesmos autores, que encetam tanto de cruel quanto de belo. Porque talvez na vontade de arrumarmos de vez com a crueldade esteja toda a beleza que nos assiste. Sem mais, nem menos, surge como boa verdade que para que alguém LGBT "alcance o respeito social e não sofra de discriminação, não haja outro remédio senão converter-se em lince. Outras pessoas haverá que se consolarão vendo todas as noites a sua gasta gravação de Os Pássaros, de Hitchcock, sonhando com plumíssimas revoluções".


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mestiça Salamanca


Salamanca foi destino. Como sempre, refez-me o coração, aquecido em tanto frio pelo presente quente de M(i)M(i). Ficam repetidamente as imagens das rendas que cobrem os maravilhosos edifícios, ficam os círculos sociais que invejo na sua “movida” mesmo sendo a cidade pequena, ficam as (enviesadas) saudades que o país vizinho não desiste de me provocar.
Mas fica também o recuerdo de um artigo assinado por Armas Marcelo no diário ABC, tendo por título A Leitura da Crise. Não é que me tenha trazido algo de verdadeiramente novo, mas trouxe-me algumas reflexões que um excerto como o que se segue pode comprovar como fortes e desafiantes: “tenho para mim que muitos dos actuais protagonistas da cultura crêem que o multiculturalismo é uma cultura por cima de outra, todas em paz e dançando uma rumba internacionalista e não, como de facto é, o inimigo maior da integração e da mestiçagem. Sem a mestiçagem não vamos a lado nenhum no presente nem no futuro, tal como não teríamos podido chegar a nenhuma parte no passado. Sem a mestiçagem chegamos ao limite nacional, bailamos e cantamos o nosso folclore e, contentes com a guerra, vamos de seguida para casa alimentando a mentira. A Humanidade é mestiça e a cultura é filha de mil pais que foram acumulando, fusão sobre fusão, os seus conhecimentos e a aplicação destes até chegarem ao mundo de hoje. A mestiçagem, esse inimigo do multiculturalismo, é a integração e a contaminação benéfica, opõe-se à fronteira e tende, irreversivelmete, a atrair os necessários contrários”.
Porque também eu havia já mostrado a minha comoção com a mestiçagem, com o que ela nos pode dar de salvação e com a bárbara limitação que tantas pessoas lhe impõe.
Espanha é-me de coração, inclusive por nela haver quem se pronuncie sobre o que a tod@s nos cabe pronunciar.

Olé!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Puta Verdad...


Nem a propósito das (minhas) relutâncias às “Sofias”, e a contrapor as respectivas maleitas, eis a minha mais recente descoberta musical (mas não só!). Adoro, e adoro e adoro. Trouxe-me um fôlego renovado, uma crença de que somos bel@s de muitas maneiras, mas sobretudo quando somos da maneira que somos. Gostar-se ou não do estilo musical é, digo eu, indiferente para o caso. O magnífico YouTube encarrega-se de nos dar o regalo de acedermos as gentes belas nas muitas versões em que, ao se desdobrarem, não perdem a continuidade do que fazem e do que acreditam. Busquem-nas, se gostarem tanto como eu (ou se não gostarem).
E é genial, a fazer da sua beleza a manifestação viva do que lhe vai na alma, tornando risível (mais) um ignorante entrevistador, porque “nunca entrou em armários que já estavam cheios demais”. :-)
Gracias, Falete.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Belos Factos Solnádicos


Facto: nunca achei piada ao senhor (e depois do que li, mais senhor o acho) nos seus dignos esforços de nos alegrar. Facto: isso não vem ao caso. Facto: os bolds que coloquei na transcrição não deixam margem para a mais mínima dúvida quanto à verdadeira, genuína e lúcida capacidade afirmativa do senhor. Facto: o sorriso que costuma assomar-lhe ao sereno rosto é mesmo sinal da valorização que faz da felicidade e que quer ver distribuída justamente por outras pessoas. Facto: a genuinidade, como se vê, é mesmo uma questão de aceitação. Facto: temos lição de cidadania, simplesmente porque cada um de nós tem que ser respeitado (para quê dizer mais?). Facto: Melhor tacada aos (agora digo eu: ditos) políticos não podia haver. Facto: o senhor percebe e traduz o Princípio da Igualdade de forma brilhante, porque imediata. Facto: fecha a entrevista com a prova mais cabal do que diz entender, porque a adopção em nada lhe faz confusão. O entrevistador é que não foi capaz de acompanhar a rapidez intelectual do senhor, porque não havia que perguntar se adoptar lhe provocava mais dúvidas (o que vinha antes, já o senhor tinha mostrado, não lhe colocava dúvida nenhuma, logo não havia que perguntar pelo mais). Via que proponho: um wokshop obrigatório com o senhor na Assembleia da República, o mais rapidamente possível.

Raul Solnado em entrevista à Notícias Sábado, 145, 10 de Outubro

Defendo o casamento homossexual”

- sei que o casamento entre dois homens ou entre duas mulheres faz confusão a muita gente, mas para mim o que é importante é que duas pessoas sejam felizes;

- aceito [o casamento entre homossexuais] porque entendo. A gente não pode entender se não aceita. Entendo lindamente. Não me faz confusão nenhuma que duas pessoas do mesmo sexo se amem […]. E cada cidadão tem que ser respeitado.

- Estamos em ano pré-eleitoral. Só falta vontade política.

- As pessoas não são melhores ou piores consoante a sua orientação sexual.

E a adopção provoca-lhe mais [?] dúvidas?
Não, nada. Há tanta criança abandonada que vai ser perdida… não percebo, sinceramente. Dois homossexuais ou duas lésbicas podem dar tanto amor como uns pais ditos normais. Isto vem nos livros, estou farto de ler estudos sobre isto. É tudo uma questão de hábito. As crianças precisam é de amor e carinho.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Des-Branquear Serralves




Arrogante seria assumir que se traz a esta Via uma verdadeira reflexão sobre o que foi a delícia de escutar, numa proximidade possibilitada pelo discurso com que nos brindou, Judith Butler no branco de Serralves. Com ela se percebeu em carne viva que a reflexão reivindica sempre ser reflectida. Com a sua interrogação do que primitivamente nos escusamos a interrogar, Serralves diluiu o branco nas cores por ela tão singularmente afirmadas como potencialmente infinitas no que fazemos de nós. A percebermos os negros da democracia “democraticamente” imposta dos dias que (não) correm, a nos devolvermos o que em cegueira fingimos enterrar: a vulnerabilidade de nos dizermos globalmente responsáveis em tempos de (teimosíssima) Guerra, em escolhas impossivelmente democráticas, terrificamente mediatizadas, estatalmente infligidas de quem deve ou não aceder ao reconhecimento de si. O discurso continua a levar-nos, com ela, ao sentido do não-sentido que é guerrear, torturar, matar “pela paz”. A fazer de nós os peixes estonteados de uma rede tão assustadoramente emaranhada que dita quem pode e quem não pode ser grievable, para nos ofuscar a necessária consciência generalizada da precariedade. Mais me tocou a serena forma com que acusou que é nesta precariedade que se impõe reconhecer o poder masculinista que impõe a vida e a morte, que a ligação de nós com o “nós” se sujeita assustadoramente a quem emerge ou a quem submerge numa (qualquer) reconhecida existência. Porque, e aqui o coração bateu-me, não há como não ter a realidade de caminharmos num autocarro com quem não conhecemos. Numa estrada que só terá caminho iluminado, mais policromático do que o branco de Serralves, na permeabilidade dos selves, numa identidade cooperante e na sociabilidade. Os búzios do mar em que nos convidou a entrar, assobiaram-me que é no “eu” perdido entre todos os “nós” que, afinal, talvez tenhamos caminho para nos encontrarmos e para que possamos saber quais os nós com que poderão construir-se redes que não nos sufoquem nos seus emaranhados. Duas linhas me sobressaíram ainda no branco do Museu: a da troca com Miguel Vale de Almeida e a da oferenda de António Gedeão por um elemento da plateia que entendi reconhecido por Butler, em oposição ao masculinismo e na adjectivação de wonderful sobre a oferenda. Nada poderia ter sido melhor para comprovar que vive o que profere.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobrevoar em Escuta


Quando ouves, sobes ao céu, desces aos vales da solidão acompanhada, viras e reviras tudo o que julgavas conhecer da vida, dás por ti a esvoaçar as planícies sobre as quais queres pairar mesmo que não saibas o que dali virás a avistar, enches o coração de lembrança e de sonho acordado, lacrimejas na sombra presente do amor que te trouxe até esta prenda, pões-te em causa nas causas que a vida julgou ensinar-te, agradeces a uma deusa tocante a graça que o seu coração lhe sabe reflectir nas mãos, repetes a experiência, questionas se é já um vício, não ressacas se o for, alimentas-te de uma outra forma de alimento, fechas os olhos e, enfim, vês o mundo mais cheio do que aquele em que todos os dias te moves em esquecimento de uma música assim.