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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Eu A(ssa)ssinei


Fazei vós o que vossa mão entenda...
Peregrinando até Aqui.

sábado, 21 de março de 2009

Ora aí está o Latex...


... e António respondeu ao meu pedido. :-)
Dele, não se esperava outra coisa.
Abençoado!

terça-feira, 17 de março de 2009

Still the Sacred Genocide


António, António, António... onde estás!? Volta depressa, mas mesmo muito depressa, para voltares a desenhar, desta vez com a tromba do Bento.

Venham depois dizer-me que a Igreja não é assassina! É pior... mata em massa!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Pérolas de SÁBADO


A SÁBADO é o que a gente já sabe. Dei por mim a ler mais uma totalmente estapafúrdia reportagem da edição de 5 de Fevereiro, que dessa reportagem faz capa.
Ficam as “pérolas” que não resisti a registar.

Pérola 1 – o título – “a moda das aventuras sexuais entre mulheres” – moda devia ser a gente já vomitar de nos virem com esta da “moda” e as imprecisões abundam, a meter no “saco das aventuras” muitas outras realidades que não são aventuras porra nenhuma;
Pérola 2 – “o álcool, um dos maiores catalisadores para as primeiras experiências sexuais entre mulheres [pouco sexista, não?] serviu de desculpa para se espicaçarem [notem: “espicaçar” é palavra empregue para dizer que tiveram sexo uma com a outra! Lindo!]”
Pérola 3 – “Maria vê nestes envolvimentos [sexuais com mulheres] uma forma de estimular o segundo casamento, …, desde que ele [o marido] assista, é claro” – já faltava a estimulação, não do casamento, nem dela mesma, mas do marido machista e prepotente; isso, sim, é que “é claro”;
Pérola 4 – Tão claro que o tal marido da Maria se denuncia a si mesmo nestas maravilhosas declarações: “É excitante ver a minha mulher com outra, mas há limites. Se ela estiver disposta a fazer sexo, terei de estar presente”. Tudo dito!
Pérola 5 – As perguntas de Fernando Alvim a São José Correia: “Entusiasma-te dois corpos femininos?” (…) “Qual é a diferença entre ires para a cama com uma mulher ou com um homem?” (…) “Com um orgasmo também é assim?”. Únicas respostas à letra: não têm que ser “dois” corpos, não têm que ser “femininos”, vê lá se chegas ao cúmulo de pedir um desenho, já devias ter feito moche forte quanto bastasse para desapareceres do mapa, ó Alvim!
Pérola 6 – (corroboração absoluta da qualidade transversal da reportagem, que nos brinda com a sistemática ideia da “moda” de que faz título e que insiste na condição mais ou menos alcolizada das mulheres que se “aventuram” sexualmente com outras):
"Ela era [?] – e é [?] – 100% [?] heterossexual [?] e a colega [com quem teve sexo] também [?]: uma mulher com um casamento feliz [não vá haver aqui mentes porcas!], dois filhos [agora é que as mentes porcas estão tramadas!] e adepta de jogos eróticos femininos para quebrar a rotina da relação [100%?????????] conjugal”.


Que seria de nós (e, em especial das mulheres) sem a preciosa SÁBADO?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Espinhos de Rosa Murcha

Podes ser gay ou lésbica. Podes meter-te na cama com quem quiseres, mas não te orgulhes de amares alguém. Podes viver anos a amar esse alguém, mas não esperes que te reconheçam a beleza do amor como se gostasses de alguém que não é do “mesmo sexo” que tu. Podes brincar aos casamentos, mas não te armes em cara(-de-)pau de corrida, que rebentos não são para ti.
Podes e deves votar em nós. Nós prometemos ajudar-te a fazer de conta que o teu casamento é igual a qualquer outro.
Teu, PS.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Jorgetes e Manelinhas, vão de retro!


Em estúpida resposta pseudo-desculpabilizante disto

“O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, disse ontem que a Igreja «não tem nada contra» casamentos entre católicos e fiéis de outras religiões, mas pediu que essas uniões respeitem os «valores católicos» das famílias. […] Segundo o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Morujão, a advertência do Cardeal Patriarca é um “justo conselho de realismo” e afastou de qualquer «discriminação ou menosprezo» pelo islamismo”.
Jornal Metro, 15 de Janeiro de 2009

Eu, que sou muito, muito burro, gostava que me dissessem:
1. porque é que alguém que “não tem nada contra” alguma coisa, prefere e profere a supremacia de “outra” coisa?
2. o que são, nestas matérias, a “justiça” e o “realismo” de um conselho?
3. como é que depois de tanto disparate junto e de tão explícitos ataques ainda falam em ausência de “discriminação ou menosprezo”?
4. porque é que há ainda quem não veja que… cada tiro, cada melro?
5. por quanto tempo haverá gente a seguir “conselhos” de semelhante seita?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Pensem muito mais que duas vezes…


… antes de ouvirem este idiota chapado (e acautelem-se não com os amores, mas com a probabilidade de ferirem TODA a sensibilidade que vos reste ao clicarem aqui).
Contigo, cara feira, é que é de certeza difícil dialogar!
Ainda bem que tu “os” (!) respeitas (tanto que te demarcas bem "deles"), ou não sei o que seria…
E, já agora: quem é que em Portugal já leu a Bíblia?
Vai mas é fumar! E que mais reacções haja à baba verbal que deixaste sair dessa bocarra!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Razões Actuais em Frágil Texto


Facto: 60 anos tem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Sou relembrado da efeméride pelo bom artigo do Público de hoje, que começa por denunciar tratar-se de um texto actual pelas piores razões. Certamente que sim, dando desde logo que pensar que seis décadas fazem das muitas mudanças que a mesma Declaração desejou um sopro tão opaco quanto lento. Porque contido está nela o ensejo de assegurar o direito a ter direitos, que o mundo continua a mostrar-nos como (tão gravemente) não cumpridos, como necessitados de real consagração no papel e no quotidiano. Neste palco de não-factos continuados, bem refere José Manuel Pureza que mais do que o nunca mais é o exaspero de todos os ainda nãos que o sexagenário documento nos obriga a recordar.
Diz ainda Pureza que toda a Declaração está por cumprir – e pois certamente que o estará, se a esmagadora parte de nós tão pouco a conhece, tão pouco a leu e, se a leu, razões terá tido para esquecê-la ou para menosprezá-la perante o espectáculo desumano que diariamente nos dá o mundo. Dei por mim a pensar que é talvez a ausência de consciência colectiva e pessoal de direitos que em primeira mão ameaça a Declaração. Como dei por mim a pensar que as recorrentes referências da ciência política à necessidade de equilíbrio entre direitos e deveres para que a cidadania se cumpra me colocam reservas: porque de direitos temos ainda visto tão pouco e porque para os deveres temos ainda que encontrar mais profundos significados.
Pensei igualmente que documentos assim só podem servir-se acompanhados de uma inquietude: a de corajosa e perseverantemente nos inquietarmos com o que não pode estar quieto. Não podem estar quietos o olhar e o sentir perante a ininteligibilidade humana, como não podem está-lo perante a evidência do desumano.
Sem isto, a referida Declaração corre perigos de se perpetuar como doloroso e inglório ensaio sobre a cegueira.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mestiça Salamanca


Salamanca foi destino. Como sempre, refez-me o coração, aquecido em tanto frio pelo presente quente de M(i)M(i). Ficam repetidamente as imagens das rendas que cobrem os maravilhosos edifícios, ficam os círculos sociais que invejo na sua “movida” mesmo sendo a cidade pequena, ficam as (enviesadas) saudades que o país vizinho não desiste de me provocar.
Mas fica também o recuerdo de um artigo assinado por Armas Marcelo no diário ABC, tendo por título A Leitura da Crise. Não é que me tenha trazido algo de verdadeiramente novo, mas trouxe-me algumas reflexões que um excerto como o que se segue pode comprovar como fortes e desafiantes: “tenho para mim que muitos dos actuais protagonistas da cultura crêem que o multiculturalismo é uma cultura por cima de outra, todas em paz e dançando uma rumba internacionalista e não, como de facto é, o inimigo maior da integração e da mestiçagem. Sem a mestiçagem não vamos a lado nenhum no presente nem no futuro, tal como não teríamos podido chegar a nenhuma parte no passado. Sem a mestiçagem chegamos ao limite nacional, bailamos e cantamos o nosso folclore e, contentes com a guerra, vamos de seguida para casa alimentando a mentira. A Humanidade é mestiça e a cultura é filha de mil pais que foram acumulando, fusão sobre fusão, os seus conhecimentos e a aplicação destes até chegarem ao mundo de hoje. A mestiçagem, esse inimigo do multiculturalismo, é a integração e a contaminação benéfica, opõe-se à fronteira e tende, irreversivelmete, a atrair os necessários contrários”.
Porque também eu havia já mostrado a minha comoção com a mestiçagem, com o que ela nos pode dar de salvação e com a bárbara limitação que tantas pessoas lhe impõe.
Espanha é-me de coração, inclusive por nela haver quem se pronuncie sobre o que a tod@s nos cabe pronunciar.

Olé!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

La Raina muy de Lejos!


Sua (obviamente não minha, mas de quem a quiser!) Majestade, a Rainha D. Sofia, estava desejosa de ser contemplada neste Blog. Mostrou-o nos factos das suas majestosas palavras (o problema é mesmo esse, terem sido majestosas) sobre vários assuntos, tendo eu ficado majestosamente encantado com dois: a violência doméstica e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. São, entre outras, duas pérolas brilhantes que lhe ficarão na coroa. Quanto à violência doméstica, o brilho da pérola é a sua insistência na (ignorante e, portanto, conivente) alegação de que há insistência sobre o assunto por parte da comunicação social. Não admira: são setenta anos em que a senhora se habituou à violência privada de se fazer, com os seus, tão privada. Para depois se fazer pública a dizer o que não deve, quando governa um dos reinos onde mais mortes se contam entre paredes, umas mais faustosas, outras menos, mas todas elas infelizes, por definição. Argumenta a monarca que falar-se sobre o assunto, “pode ser contagioso, dando-se ideias a outros que imitam” a barbaridade. Sendo assim, há que depreender que também a sua querida família, que mesmo estando no trono não deixa de ser humana, está sujeita às tais imitações, a ter ideias que não deve, a contagiar-se. Falta saber, em potencial de contágio e de imitação, quem agredirá quem (embora isso não interesse para o caso, que é mau em qualquer caso): Letícia, Filipe, Juan Carlos, os rebentos e a própria Sofia estão aptos, a qualquer momento em que leiam um jornal ou liguem a televisão, a atirar sobre outrem, a espancarem-se, a serem pérolas monárquicas do contágio. Lá saberá a rainha que ideias e/ou que actos se têm desenvolvido entre as paredes do Palácio Real!
A dita senhora consegue, pelo menos, ser consistente com o que diz. Porque na mesma linha de pensamento opina sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Que se durma na mesma cama quando se tem “outra (?) tendência (?) sexual (?)”, mas que se fechem as cortinas para que Espanha mantenha o decoro. Diz que não empatizou com Aznar, o que me leva a imaginar que deve sua Majestade correr riscos bulímicos quando se acerca de Zapatero. Indignada porque há quem sinta orgulho por ser gay (a gente percebe, porque orgulho é coisa que nunca caberia a uma Rainha!), porque os gays sobem para um carro e saem em manifestações (a gente percebe, porque subir a um carro e ter milhares de acenos manifestantes de embevecimento é coisa que nunca caberia a uma Rainha!), porque se vestem de noivos e se casam (a gente percebe, porque vestidos de gala e caudas gigantescas de casamento são coisas que nunca caberiam a uma Rainha!), a pobre (de espírito, como é óbvio) deve a-do-rar o José Luís, ainda mais quando diz que tudo isto vai contra as leis do país que lhe veste a coroa, leis que o José Luís em nada suportou!
O assunto esgota-se no maior favor que a Rainha começa por fazer a si mesma e, em seguida, a quem tem dois dedos de testa (que é coisa fácil perante a dela, imensa em extensão, minúscula em serviço): o favor de dizer que “se todos os que não somos gays saíssemos em manifestação… entupiríamos o tráfego”. Ó Sofia, a questão é que já entopem: o tráfego, as vontades homofóbicas como a tua, os números das mortes acontecidas sobretudo entre os únicos casais que reconheces como dignos de tal nome, a montanha de violências sobre gente que tem tanto direito a vestidos como tu e, talvez acima de tudo, as filas para compra do livro em que acedeste expor (para mim, em jeito de Real violência pública) as baboseiras com que nos presenteaste.
God Shave the Queen!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Agradecer-Vos


Há que agradecer-Vos, Senhores, pelo 10 de Outubro que prometeis oferecer-nos. A tant@s de nós que ainda vos críamos. Há que agradecer-Vos, por serdes tão grandes que não ousamos sequer alcançar-Vos nas intenções que nos demonstrais. É de todos os passados que se farão as Vossas magnificentes oferendas nesse dia. De todos os passados em que, mesmo repelid@s nos nomes que ousámos dizer, não necessitámos afinal de Vós para os termos ousado. Vireis lembrar-nos de todas as forças que não deixaram de assistir-nos desde que somos quem somos, porque jamais podereis deixar de falar de nós, mesmo que queirais calar-nos. O silêncio e o não, não sei se percebereis, são dizeres menos dignos, mas nem por isso pouco pronunciados. Como pronunciadas foram e são as negações que hoje continuamos a rezar na História e nas histórias. Por isso não ousamos alcançar o que alcançais Vós, que é fingirdes que a História não se inscreveu, que é julgardes decidir sobre o que decidimos nós há tanto tempo, que é pousardes sobre tronos de que nada servem, ao estarem demasiado altos para avistarem as tantas histórias de amor que à História não conseguireis roubar.
É também em todos os presentes que irão recair as Vossas magnificentes oferendas. Nos presentes orgulhos de não sermos como Vós, no orgulho de sermos como queremos que nos queiram, na vergonha da vergonha que nos tendes. Em todos os presentes que nos damos entre nós, quando nos unimos para Vos dizer que persistiremos, como “gentes nem remotas nem estranhas”, mas seguramente como remotas e estranhas a Vós, que remotos e estranhos sois à cidadania que havíeis prometido. Em todos os presentes constituintes de famílias numerosas, ideia que abençoais sem percebê-la, porque famílias enormes somos nós ao fazer do sangue coisa bem menor do que os laços que nos apertam. No coração e na boca que Vos mostramos sem que nos saibais sentir nem ouvir. Estais longe, muito longe, para sentir-nos e ouvir-nos e por isso há que agradecer-Vos quando nos sabemos menores do que Vós, mais tão mais chei@s de vontade de nos legislarmos nas intenções de resistência que nos fortalecem. Há que agradecer-Vos por estamos mais perto de todas as outras realidades que calais, negais ou fingis serem Vossas: as realidades das vergonhas que provocais em quem não considerais. Porque a Vossa cidadania é feita de gente remota e estranha à não-condição humana. O que nos dareis de tão magnificente oferenda é a possibilidade de pensarmos ainda mais do que já temos pensado no que pensarão, ao nosso lado, tod@s os que percebem a vergonha que nos tendes. Tende cuidado, Senhores, com o que ao fazerdes de nós dais de exemplo a outras gentes que nos transportam na pele porque também como não-gentes são tratadas. Dessas outras gentes estamos a falar-Vos sem que nos ouçais, dessas outras gentes deixámos de dizer que são “outras” ou não estaríamos a exigir o que exigimos, que é sermos presentes na presença plural, igualitária e cidadã que como mais pequenos conhecemos e sentimos sem ambicionarmos a Vossa insuficiente grandeza.
De futuro hão-de fazer-se ainda as oferendas que nos reservais. Quando pudermos contar o que deixastes Vós na História desse dia. Digais o que digais, calais o que calais, há-de servir a vossa oferenda para lembrar que mesmo na inquietude Vos lembrastes de nós. Que fracturantes fostes para nos garantireis que inteiros permanecemos. Que de tod@s os que aqui permanecermos não soubestes dar nem conta, nem medida. Porque em tanto negro demorastes sobre o que de há longe era claro: que de Vós tivemos vergonha, sem vergonha de vos arrancarmos a vergonha sobre nós. E que a cidadania não foi Vossa, mas de tod@s os que por ela fizemos. Para sabermos que havia tanto e tão pouco a fazer pelo que fomos, somos e seremos.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ascoroso


Gonçalo da Câmara Pereira. Bastião da Tauromaquia, do marialvismo, do chauvinismo, da labreguice com a "nobreza" e a monarquia de dedo em riste. Triste. Estúpido, mais do que os touros que gosta de pegar. Porque gosta de dizer, com sorriso ascoroso em comentário de programa igualmente ascoroso que "a homossexualidade é doença, se pega, que é, como se costuma dizer, o que pega de empurrão”. Novamente risos em pose tauromáquica a dar cotoveladas noutro palerma chamado Cláudio Ramos, mas que ainda assim conseguiu ser menos palerma do que é costume ao afirmar que não, que não é doença (espanto… ou quem sabe se caminho de real afirmação). Um esterco que mostra que a "verdade" (a deste labrego e a de muitos outros) não compensa. Mais do que isso: faz mal, é perigosa, replica as inclassificáveis reacções que quotidianamente vemos repetidas. Porque, seja a redundância redundante, a "verdade" não é verdade. E é um nojo quando se diz verdade.
Pergunta seguinte: quando é que este esterco de programa é retirado do ar?

PS - Naturalmente, os touros não têm culpa do palermóide do Gonçalo e conseguem ser pintados a rosa, cor que não ficava nada mal ao palermóide. Não bastava era vesti-la, era preciso senti-la.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Os perigos de NÃO dar de fumar!


É a quarta (repito: quarta) vez que me acontece no espaço de dois meses. Enquanto caminho pela rua, vou fumando os meus cigarros (parece que nas ruas ainda nos deixam fumar), vou aproveitando para fazer algum exercício físico e para (nem sempre, mas com alguma frequência) ir olhando a cidade, nos seus espaços materiais e no seu preenchimento humano. Com frequência, abeira-se de mim gente e pede-me um cigarro (como a muitas e muitos de nós). Das quatro vezes em que os factos aqui relatados ocorreram, o tom do pedido foi o mesmo: delicodoce, miserabilista, pseudo-amigável, acompanhado de justificações infindáveis sobre a impossibilidade de comprar cigarros. Das quatro vezes exerci um óbvio direito, sem qualquer preconceito ou ideologia associados a quem me dirigiu o pedido: não dar. Das mesmas quatro vezes a reacção foi a mesma: cessação imediata do tom delicodoce, revés do miserabilismo pela agressividade manifesta, finalização das justificações e chorrilho de insultos que registei mentalmente: “roto do caralho”, “os paneleiros são sempre a mesma merda”, “deves fumar por outro sítio” e “ai, ai, ai, como ele mexe a mãozinha”. Daqui infiro que: (1) devo ter alguma coisa inscrita em mim que conduz a tais apreciações (tanto se me dá que tenha ou que não tenha), (2) por muito que seja desagradável ouvir o que ouço mais razões tenho para continuar a não dar, (3) sonho mesmo com um polícia em todas as ruas para me auxiliar no exercício do Princípio da Igualdade (além de todas as outras coisas pelas quais nos daria jeito mais policiamento), (4) o preenchimento da cidade vai sendo cada vez menos humano (nestas e noutras reacções a que estamos sujeitos) e (5) a exclusão é de facto muitas vezes suportiva de outras exclusões. Nada que a gente não saiba, mas que continua a moer e que se calhar nos leva qualquer dia a saber que FUMAR MATA… SE A GENTE SE RECUSAR A DAR DE FUMAR.

sábado, 20 de setembro de 2008

Antes fosse... Alegre


É facto que Alegre trouxe exactamente o que necessitávamos de ouvir. Não o que desejamos que seja dito. Mas que é exemplar no conteúdo. Exemplar de tão ignorante, nem mais nem menos do que ignorantes têm sido as posições da “maioria” (não sei o que a palavra significa!) parlamentar. Os “jovens socialistas”, canta o Alegre, estão mal, muito mal, porque defendem “temas fracturantes [e eles, os Alegres, a darem-lhe!] que estão na moda e depois passam”. Sim, seguramente mais na moda do que o Alegre, que é triste na sua obsoleta e pro-poética (e por isso pouco real) abordagem. Mas o que já me aborrece de morte (e nela não encontro sentido) é a pronta necessidade de justificação que os mesmos jovens se dão ao trabalho de lhe oferecer: a de já terem feito algo em prol das “outras” (também não sei porque são "outras"!) necessidades do país. Não, queridos. Bem sei que estamos fartos de saber que vos cabe defenderem a concretização de agendas. Mas não, a resposta mais pronta e verdadeiramente alegre não devia, digo eu, ser a que dão. A precaridade do emprego jovem, os manuais escolares necessários à aprendizagem, a redução de custos de trasporte, os estágios profissionais, todas estas coisas que o Alegre diz serem de “mais urgência” são grandemente beneficiadas pelos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. É porque não fazem de conta que gostam umas das outras, é porque querem celebrar com sustentação jurídica os esforços de contribuição conjunta para o bem estar acrescido do país dos Alegres, é porque sabem que a precaridade laborar pode em muitos aspectos ser reduzida, é porque pretendem que os transportes tenham custos em pé de igualdade com os benefícios que a casais de sexo diferente são conferidos, é porque os bons manuais devem incluir a referência igualitária a casamentos entre pessoas do mesmo sexo, é porque estando-se bem na relação com @ parceir@ que mais provavelmente os estágios (profissionais e outros) podem correr melhor, é por todas estas e muitas mais coisas da vida que tantas pessoas do mesmo sexo, se responsáveis e respeitadoras da sua condição cidadã, pretendem (e necessitam de) dar o nó com apoio do Estado em que vivem.

Precisavamos pois de ouvir Alegre para perceber quão bem as suas palavras ilustram a discussão estapafúrdia que ainda temos que aturar. Ou melhor, precisavamos de o ouvir para termos certeza da incerteza que já sabíamos que nos condena. Mas mais do que todas estas contribuições a um Estado de direito que pessoas do mesmo sexo podem dar se casadas, faz-me bem pensar que é em busca de estabilidade afectiva que muitas destas pessoas podem marchar pela mão do casamento. Porque sim, Doutora Maria de Belém, é de igualdade (a senhora é que costuma dizer que sabe disso, embora não pareça) que se trata. Não se junte ao Alegre, que fica tão triste como ele e veja se entende de uma vez por todas que a questão é mesmo prioritária, porque prioritário é o bem estar e a felicidade relacional de quem se entende como cidadão. Porque prioritária é sempre a vontade de que se reconheça aquilo a que todas e todos temos direito: ter direito, com apoio do Direito.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Todos os Beijos que Quisermos




Facto é que M(i)M(i) partiu hoje, em viagem de merecidíssimo descanso para terras distantes. São sempre distantes, para quem sente a estreiteza do coração. A alegria foi imensa, como é sempre a de quem ama e se alegra com o que alegra outrem. Mas não deixa de esconder a tristeza da despedida. Que é, por definição, custosa, mas para algumas e alguns de nós mais do que para outras e outros.

E é assim que a parca cidadania que (nem sequer) nos assiste assoma aos olhos lacrimejantes que se fazem, paradoxalmente, tanto da despedida quanto da impossibilidade de a consumar livremente. Defendo, sem qualquer arrogante capa de inédita descoberta, que é aqui que mais falhamos, porque é aqui que mais nos obrigam à contenção: no beijo “apaixonado”, “romântico”, “amoroso” (as designações importam-me bem menos que a substância do beijo). Olhem à volta e digam-me quantos beijos viram ser dados em público nos últimos tempos. Quantos beijos viram ser dados desde que se lembram de ver beijos (vá a vossa memória até onde consiga ir). Digam-me, depois disso, quantos viram ser dados entre não-“normativas” gentes. Não encontro forma melhor de designar estes “outros” que costumam ser os “mesmos”, que são tão repetidamente os mesmos (o plural se encarrega de dar conta do heterossexismo e da "compulsão para a heterossexualidade”) . Não quero, claro está, rebaixar, por um milímetro de existência que seja, a beleza que podem (eu disse: podem) ter os beijos destes “outros mesmos”.
O que eu quero, mas o que eu quero mesmo, é que a mais internalizada democracia (tenho tentado que a expressão seja inédita!) comece pela celebração do beijo entre “outras” e “outros” que não os “mesmos”. Que não tenhamos mais que pedir (não ao gato, mas aos ditos concidadãos) que não nos denunciem, que não nos limitemos às paredes para confessarmos de quem gostamos (ou, mais até, que nem precisemos de confessar). O que eu quero mesmo, mas mesmo, é que o bater do coração não esteja condenado ao silêncio, que o beijo prometido - o meu a M(i)M(i) ou de quem quer que seja a quem quer que seja – não apenas se traga ou se leve, mas que se traga e que se leve como quisermos e não como e/ ou onde pudermos. Que não tenhamos de espreitar por portas encostadas para vermos os beijos, todos os beijos que quiserem ser dados. Sem isto conseguido, não me parece que a cidadania possa alguma vez ser (também) nossa.

Eu só quero, afinal, que as despedidas e os reencontros não nos obriguem a falhar nisto: impedir que o beijo se prenda e encorajar que o beijo se solte.
Porque nada menos que cidadania de TODOS os beijos.

PS1 – a fotografia é escolhida (depois de pela primeira vez a ter visto no elgêbêtê) pela beleza que sempre lhe reconheci, que a trouxe à visão quotidiana na minha sala e não por qualquer enaltecimento classista.
PS2 – gostava muito de perguntar à Catarina Furtado em quem se inspirou para a escrita de tão retratante poema.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Y Viva (?) España.




Fez parte das minhas tão merecidas férias uma saltada até Vigo. Ares frescos desejados, vontade de ler jornais que não os lusos, tão somente dispor de outras paisagens, reconhecendo que nem sempre estou atento às paisagens que todos os dias me cercam. Espanha é, para mim, maravilhosa na língua, nas melhores recordações da infância, no encontro quotidiano que (assumido o estereótipo) mesmo os galegos sabem marcar pelas ruas. Adoro Espanha, sem orgulhos nacionalistas (nem os do país em que nasci nem os de outro país qualquer). Simplesmente porque me sinto em casa, mais em casa do que na casa em que me vejo necessitado a viver (isto, só por si, comprova a ausência de nacionalismos). Mas não há como negar que da formalidade à prática vão ainda muitos, muitos passos.
As fotografias dão conta da atroz semelhança com a nossa realidade (melhor dizendo, com a nossa falta de realidade). Chegado, li a revista Zero e comprovei que apesar das leis (casamento, coisa e tal), os ataques homófobos quadruplicaram num ano (diz Eduardo Mendicutti, que sempre gosto tanto de ler). Revi o que já tinha sabido em Espanha – que uma jornalista espanhola foi despedida da COPE, cadeia radiofónica que a pôs no olho da rua pelo facto de ter casado com uma mulher. As vergonhas podiam continuar a ser inventariadas, naturalmente. O que fica é a corroboração de que não bastam as leis. Já o sabemos, mas foi uma constatação reforçada de férias. Casemos (ou não), mas sobretudo possamos democraticamente viver. Em vez de sobreviver. E era o que mais faltava darmos graças por não morrer (embora tenhamos de pensar nisso). Haja, ao menos, resposta à tentativa de sensibilização da faixa da janela. Ah pois somos cúmplices, somos.
¡Qué lastima, cariños!


PS - outra corroboração foi a sensibilidade (para lá de fotográfica) de M(i)M(i).

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Arre, estúpido!!!


Estupidez é não perceber que o senhor que escreve isto é imensamente estúpido! Provavelmente, porque foi educado por "heterossexuais" estúpidos. Se não o foi, dê mais dignidade à imagem de quem o educou. A gente até só pede que faça uma "fórcinha" para denunciar um bocadinho a estupidez de quem o deseducou. Pode ser que isso contribua para o acharmos menos estúpido. Ou então vá ser estúpido para outro sítio.
Acresce o absolutamente não-estúpido comentário do meu adorado MiMi, que comigo vai caminhando cada vez mais terna e empenhadamente nestas denúncias:

Se estivessemos perante um simples colaborador do Expresso a assinar tal artigo ainda seria dado o benefício da dúvida mas sendo o caso do Director a escrever um artigo de opinião, algumas questões relevantes devem ser levantadas. Primeiro, sobre o artigo, o Sr. Henrique não domina o tema, não fez investigação jornalística e limitou-se a escrever um artigo de rotina, ao bom jeito do jornalista que não se empenha no que faz. Segundo, sendo sua opinião a vigente na redacção desse jornal conclui-se que é a da estupidez de opiniões que domina o vosso trabalho neste momento. Terceiro, e em remate final, o Expresso confessa-se mais conservador que nunca e que de "moderno" apenas tem o aspecto gráfico. "Antes que venha" o Sr Henrique (chamar-lhe jornalista não faz sentido) voltar a escrever sobre um novo tema com a mesma profundidade que escreveu este, tão pessoal, e nele incluir tamanha estupidez ou "coisas do estilo", talvez os jornalistas do Expresso devessem "debater" (verdadeiramente) para mostrarem o quão próximos estão das "opiniões" do seu director e para com ele não serem confundidos. Em nome do bom jornalismo que se quer numa "democracia moderna" que não a dele.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Nossa Rainha


Este ano, Manuela Ferreira Leite aceitou o convite para ser Rainha da Marcha do Orgulho LGBT do Porto. Mesmo estando eufórica pela antecipação do acontecimento, concedeu-me esta entrevista, que tomei a liberdade de vos transcrever.

Porque acedeu, Manela, a ser Rainha da Marcha?
Porque não sou suficientemente retrógrada para ser contra as ligações heterossexuais, aceito-as, são opções de cada um, é um problema de liberdade individual sobre o qual não me pronuncio.
Fala sempre no masculino…
Ah sim, tem razão. De facto as mulheres merecem toda a primazia do discurso. Desculpe. Prometo que farei jus à minha condição de Rainha gritando por toda a cidade invicta no feminino, no masculino e no que não cabe nem numa nem noutra destas designações.
Diga-nos, Manela, porque se pronuncia, afinal?
Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto àquilo que é uma relação de duas pessoas de sexo diferente igualmente ao estatuto de pessoas do mesmo sexo.
Mas isso não lhe parece algo homossexista ou algo heterofóbico?
Sim, mas olhe que eu sempre tive estratégia política, como sabe! O que verdadeiramente acontece é que estou cansada do que já todos sabemos: que os heterossexuais não tenham de que queixar-se. Ser Rainha é um privilégio em prol da celebração de quem nunca é reconhecido. Ai desculpe, …, de quem nunca é reconhecida ou reconhecido. Acha que um dia no ano compromete o que as mulheres e os homens heterossexuais conseguiram e mantêm ao longo de tantos séculos?
Não, não, pelo contrário. Isso é, realmente, uma posição política digna de uma Rainha.
É a única posição que me cabe como Rainha! Admito que esteja a fazer uma discriminação homossexista ou heterofóbica, como disse, mas porque é uma situação que não é igual. A sociedade está organizada e tem determinado tipo de privilégios, de regalias e até medidas fiscais no sentido de promover a família heterossexual. Pois se assim é, devemos pensar que o que faz falta é promover o afecto, a adopção e, quem sabe, a procriação, mas apenas desde que desejada, consciente e possibilitada a todas as pessoas independentemente da sua orientação sexual ou identidade de género. É uma realidade. Chame-lhe o que quiser, mas chame o mesmo nome às pessoas e aos laços que estabelecem e esqueça essa coisa aborrecidíssima de estarmos a falar de homens, de mulheres, de orientações sexuais e de identidades de género. Uma coisa é casamento, outra coisa é qualquer outra coisa. O que significa que todas e todos devem ter acesso a ele e que quem não o quiser deve poder escolher rejeitá-lo. Não deve é deixar de escolhê-lo ou rejeitá-lo por causa de rótulos. Isso está mais ultrapassado do que a minha imagem. Por favor!
Quer dizer mais alguma coisa às pessoas LGBT do país que ambiciona governar?
Quero dizer-lhes que reconhecer o que é óbvio só me traz votos. Só se seu sofresse de uma debilidade mental é que seria incapaz de reconhecer que tudo o que lhe disse só pode beneficiar um político, ai, desculpe, uma política, ainda por cima que se designa social-democrata. Isto é ganhar votos e a minha estratégia política nunca poderia deixar de atender a isso.
Podemos ainda saber como vai vestida?
Estou em crer que me vai ser difícil ter um guarda-roupa à altura das imagens animadíssimas e renovadas que muitas vezes invejei nas Marchas do Orgulho. Naturalmente que se não tivesse aceitado ser rainha, iria vestida com o que tenho, a acompanhar a sobriedade de muitas outras pessoas que também sempre admirei nas Marchas. A ver vamos. Mas é verdade que a pluma está a tentar-me mais do que a governação do país.

Disse à Manela, no final da entrevista, que me senti a mentir. Mas a seguir também lhe disse que ao menos eu sabia que era mentira. Ao contrário de muitas outras pessoas que sabem que não estão a mentir quando dizem as mais bárbaras palavras. Não sei porquê, ficou a pensar nesta minha observação final. Não percebi…