
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
My Diva

quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Amores e Lua

quinta-feira, 2 de julho de 2009
A Marcha, II

A igualdade com que vivo é a do abraço tão necessário quanto saudoso, do beijo que apetece depois de não ter apetecido tanto, do desencontro entre o querer e o não querer, do choro e do riso quando acontecem, da subterrânea constância que o ser amado me assegura, da marcha mais ou menos recôndita mas sempre quotidiana do meu orgulho, da vergonhosa vergonha que não conseguem fazer vingar sobre mim. A igualdade com que vivo sopra no horizonte das crenças sem as quais não viveríamos, faz-se pluma no vento que é preciso alimentarmos em nós, finge apenas desvanecer-se quando nos violentam o que não queremos desvanecer e bebe da água que só o querermos ser quem somos faz jorrar. A igualdade com que vivo é incessante na insatisfação com a diferença, essa marca que impede que antes de todas as etiquetas estejamos nós, essa contra-marcha que não se deu ainda conta de que marcharemos, mais ou menos visivelmente, pelas igualdades que a passo e passo cada um e cada uma de nós saberá que lhe vai assistido.
A igualdade com que vivo seria falsa se não fosse quase infinitamente constelada de diferenças. As minhas e as de outrem, as de ontem, as de hoje e as de até. A igualdade que me move já não sabe que nomes pode ter, depois de ter tido tantos e antes de já não saber ter nenhum. Essa é a marcha mais ininterrupta que pode alimentar-nos a vida: feita do céu azul da liberdade, do esbatimento entre a igualdade e a diferença, do sorriso vingado sobre tantas e tão longas torturas, do passo tão singular quanto acompanhado, dos amores que só as miríades quase abarcam, do caminho na procura de sermos cada vez menos o que não somos.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Wonderful Fuckers

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Fuck Off, Paul!

domingo, 4 de janeiro de 2009
Requiem para Lisboa
Se Lisboa fosse um Requiem, tê-lo-íamos escrito mais belo do que muitos. Na chuva dos dias que nela houve, houve o céu limpo que lhe oferecemos, houve o abraço da chegada, que é sempre como se não o fosse porque estávamos já lá. Se Lisboa fosse um Requiem, as primeiras notas soariam baixinho no cuidado de acolher, em sobretudo cor de mel, em sorrisos cicerónicos que nos abrigam de muitas chuvas, no caldo verde a saber à felicidade com que enganámos a morbidez da composição. Se Lisboa fosse um Requiem, haveria gente cantando na brancura de uma casa onde pão e vinho sobre a mesa se abriu a gentes que traziam vestidos e a outras tantas gentes que sabem vesti-los. Haveria gente feliz a percorrer um bairro tão alto quanto a vontade de subir ao céu e de nele nos encontrarmos um dia sentados, sem anos contados, sem deuses maiores do que nós, com anjos como os que buscamos nos dias e nas noites ou com diabos sem género mas de pele e de alma frescas. Se Lisboa fosse um Requiem, teria jantares maravilhosamente servidos no bairro ainda alto, teria éter a fazer continuar o céu que lhe inventámos, só para descer ao feliz inferno de um cubículo onde outras gentes vivem de esvoaçados vestidos, só para sorrirmos nas gotas, feitas mais de éter que de chuva, de molhados desejos, nesse inferno ou noutros, procurados na retaguarda de um carro, num quarto com um adónis azulado em quadro que a noite veste de cobalto, nas mãos de um rapaz que inferniza um tão querido tio pelas palavras que não lhe dirige depois de tocá-lo. Se Lisboa fosse um Requiem, não saberia senão ver-se enganada no prenúncio da morte, ou não fossem imensamente nossos o sorriso e o gesto insistentes da Tarantella, o breve e sabido fingimento de sermos aqueles que não morrem nunca. Se Lisboa fosse um Requiem, teria um fim tão saudoso quanto mascarado: de Genet cantando amor, de Rufus-Judy ondulando as mãos como Amália, de um porno-terno a explicar porque há quem nos ame e quem não nos ame mais, de um telhado de onde pudemos ver o rio a que quereremos sempre voltar, de um tio que nos aquece a casa para nos recompor a partitura e nos fazer cantar menos mal. Se Lisboa fosse um Requiem, seria feita de nós, que nela fomos tanto quanto a vontade de sermos quem somos. Avé.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Prazeres de Ano Novo

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Mestiça Salamanca
Mas fica também o recuerdo de um artigo assinado por Armas Marcelo no diário ABC, tendo por título A Leitura da Crise. Não é que me tenha trazido algo de verdadeiramente novo, mas trouxe-me algumas reflexões que um excerto como o que se segue pode comprovar como fortes e desafiantes: “tenho para mim que muitos dos actuais protagonistas da cultura crêem que o multiculturalismo é uma cultura por cima de outra, todas em paz e dançando uma rumba internacionalista e não, como de facto é, o inimigo maior da integração e da mestiçagem. Sem a mestiçagem não vamos a lado nenhum no presente nem no futuro, tal como não teríamos podido chegar a nenhuma parte no passado. Sem a mestiçagem chegamos ao limite nacional, bailamos e cantamos o nosso folclore e, contentes com a guerra, vamos de seguida para casa alimentando a mentira. A Humanidade é mestiça e a cultura é filha de mil pais que foram acumulando, fusão sobre fusão, os seus conhecimentos e a aplicação destes até chegarem ao mundo de hoje. A mestiçagem, esse inimigo do multiculturalismo, é a integração e a contaminação benéfica, opõe-se à fronteira e tende, irreversivelmete, a atrair os necessários contrários”.
Porque também eu havia já mostrado a minha comoção com a mestiçagem, com o que ela nos pode dar de salvação e com a bárbara limitação que tantas pessoas lhe impõe.
Espanha é-me de coração, inclusive por nela haver quem se pronuncie sobre o que a tod@s nos cabe pronunciar.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Alguma Coisa do Mar (ou de Mim)
Numa ilha do Atlântico.
Mais uma vez, obrigado Ana, pela sabedoria das palavras.
Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim
Clara, noite rara,
nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim
Ana Carolina
Eu Que Não Sei Quase nada do Mar
domingo, 6 de julho de 2008
A Marcha, I

Marcho pelas flores que quero ver
Nascidas do desterro de outras flores
Que mesmo murchas são mais frescas
Do que a secura de dizer não haver dores
Eu preparo uma marcha que é de cores
Sobre o negro da vergonha e do esquecer
Que outras marchas houve para amores
Nada tristes mas apenas impedidos de dizer
Marcho pela vontade de alegria
A gritar a alegria das vontades
De aqui estar a pedir que venha o dia
Que dá luz ao desejo das verdades
Eu preparo uma marcha que é de mim
Em que só as flores se podem ver
E que os dizeres nos fujam sem as pétalas
Da verdade, do desejo e do querer
terça-feira, 24 de junho de 2008
Olha pro céu

segunda-feira, 28 de abril de 2008
Emendar o Quadro

Fazer uma leitura assim dos factos nada tem de inédito. Mas tem o sentido inteiro de que valeu a pena chegarmos até aqui, porque a vida nunca é pequena. Afinal, a única ciência da vida é a descoberta cada vez menos dolorosa do que nela não queremos. Para depois podermos querer euforicamente tudo o resto. Da mesma ciência restará o livro que escreveremos sem necessidade alguma de edição: o livro de nós, de nós que jantamos e bebemos, que dançamos em nuvens mais feitas de amor do que de fumo, que voltamos de outras terras sem nunca termos verdadeiramente partido, que nos sabemos renovados na pele. Ou, o mesmo será dizer, o livro que se enche de parágrafos repletos dos factos que para nós realmente contaram, contam e contarão na vida.
O fundo verde enaltece toda essa imensa pequenez dos factos. Em cor de esperança, sem a qual nunca poderíamos dizer estarmos vivos. Da cor sobre a qual podem dormir seres de tão diferentes formas, ainda que com a expressão da mesma substância. De uma substância recoberta de pormenores que nuca o são, quando pintada a tela da vida e da morte. Pormenores que nos sossegam e abraçam, em que uns de nós se representam mais incapazes de sorrir e de mostrar sossego do que outros.
Apesar de nuvens mais ou menos negras, todos nós, que ali estamos, ainda nos vemos separados da morte. Ainda tombamos, mas para o lado que lhe é contrário. Por isso mesmo, a única coisa que quereríamos emendar no quadro seria a expressão da morte. Mudá-la para sabermos, acima das constelações que o céu nos oferece dia a dia, rirmo-nos tranquilamente dela e fazê-la incapaz de se rir de nós. Depois de guardados todos os pequenos mas imensos factos. Depois do livro bem encadernado.