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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Sem esquecer o(s) Laço(s)



Nas palavras maravilhosamente pensadas e cantadas por Barbara. Única, uma vez mais.

Num mar de estigmas em que o(s) Laço(s), quando verdadeiros, são a vacina e a cura possíveis.


Si s'Aimer d'Amour,
C'est mourir d'Aimer,
Sont mourus d'Amour,
Sida Sidannés,

Les Damnés d'Amour,
A mourir d'Aimer,
Ils sont morts d'Amour,
D'Amour Sidanné,

O Sida Sida,
Danger Sida,
O Sida Sida,
Sid'Amour à Mort

O Sida,
Sid'assassin recherché,
Mais qui a mis l'Amour à Mort,
Mon Amour malade,
Ma douleur d'Aimer,
Mon Damné d'Amour,

Sida Sidanné,
A vouloir t'Aimer,
Amour à mourir,
J'en mourrais peut-être,
Amour Sidanné,

O Sida Sida,
Danger Sida,
O Sid'Amour à Mort,
Maladie d'Amour,

Où l'on meurt d'Aimer,
Seul et sans Amour,
Sid'abandonné,
A pouvoir encore,
S'Aimer d'Amour,
A en mourir d'Aimer,
A guérir ce mal d'Amour,
Qui nous a fait mourir,

Sid'abandonné,
Si s'Aimer d'Amour,
C'est mourir d'Aimer,
Sont mourus d'Amour,
Seuls et Sidannés,
Les Damnés d'Amour,
A vouloir s'Aimer,

Ils sont morts d'Amour,
Sid'assassinés.


Sid'Amour - Barbara, 1987


terça-feira, 14 de abril de 2009

Esquecer o 15


Hoje cheiraste a rosas. Cheiraste à vontade adormecida do abraço. Hoje cheiraste ao desejo das pétalas. Suspiraste em cada um dos movimentos escurecidos pela necessidade de mais um dia. Continuaste a fazer-te de rosas, desfloráveis nos sonhos tacteantes. Foste um horizonte a escurecer-se. Hoje cheiraste à lembrança, camuflada em meigo apelo, de outras escritas sobre todas as rosas. Estiveste suave, como sempre te fazes. Hoje foste a embarcação carregada de ti. Carregada de rosas. Seguindo esquecido de teres esquecidos as rosas. Porque hoje cheiraste ao que não podes deixar de ser.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Fuck Off, Paul!


Definitivamente, depois de termos uma tão boa notícia como esta, ficamos certificados de que há náufragos com muita, muita sorte, como é o caso deste. Ainda assim, sem o ter sabido, o náufrago fez-nos um favor e, com isso, deu-nos algo muito mais importante e digno do que a sua (imerecida) salvação náufraga: termos tido um barco que, sem se ter afogado, nos deu uma história e uma História bem mais importante do que a do Titanic.

Thanks for Your Blessed Waves.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Requiem para Lisboa


Se Lisboa fosse um Requiem, tê-lo-íamos escrito mais belo do que muitos. Na chuva dos dias que nela houve, houve o céu limpo que lhe oferecemos, houve o abraço da chegada, que é sempre como se não o fosse porque estávamos já lá. Se Lisboa fosse um Requiem, as primeiras notas soariam baixinho no cuidado de acolher, em sobretudo cor de mel, em sorrisos cicerónicos que nos abrigam de muitas chuvas, no caldo verde a saber à felicidade com que enganámos a morbidez da composição. Se Lisboa fosse um Requiem, haveria gente cantando na brancura de uma casa onde pão e vinho sobre a mesa se abriu a gentes que traziam vestidos e a outras tantas gentes que sabem vesti-los. Haveria gente feliz a percorrer um bairro tão alto quanto a vontade de subir ao céu e de nele nos encontrarmos um dia sentados, sem anos contados, sem deuses maiores do que nós, com anjos como os que buscamos nos dias e nas noites ou com diabos sem género mas de pele e de alma frescas. Se Lisboa fosse um Requiem, teria jantares maravilhosamente servidos no bairro ainda alto, teria éter a fazer continuar o céu que lhe inventámos, só para descer ao feliz inferno de um cubículo onde outras gentes vivem de esvoaçados vestidos, só para sorrirmos nas gotas, feitas mais de éter que de chuva, de molhados desejos, nesse inferno ou noutros, procurados na retaguarda de um carro, num quarto com um adónis azulado em quadro que a noite veste de cobalto, nas mãos de um rapaz que inferniza um tão querido tio pelas palavras que não lhe dirige depois de tocá-lo. Se Lisboa fosse um Requiem, não saberia senão ver-se enganada no prenúncio da morte, ou não fossem imensamente nossos o sorriso e o gesto insistentes da Tarantella, o breve e sabido fingimento de sermos aqueles que não morrem nunca. Se Lisboa fosse um Requiem, teria um fim tão saudoso quanto mascarado: de Genet cantando amor, de Rufus-Judy ondulando as mãos como Amália, de um porno-terno a explicar porque há quem nos ame e quem não nos ame mais, de um telhado de onde pudemos ver o rio a que quereremos sempre voltar, de um tio que nos aquece a casa para nos recompor a partitura e nos fazer cantar menos mal. Se Lisboa fosse um Requiem, seria feita de nós, que nela fomos tanto quanto a vontade de sermos quem somos. Avé.

sábado, 22 de novembro de 2008

Noite


Apeteceu-me apenas dar um beijo à noite. Depois de um dia em que um casamento teve a bondade de me devolver a saudade do meu amor, em que um anjo de olhos claros se sentiu a quase terminar um projecto comigo, em que dois amigos fizeram as rosas menos escuras só por estarem ali, na celebração (das torturas desvanecidas) de uma tese e na oferenda de uns líquidos etílicos, em que afinal a vida mais uma vez comprova que o que tem de melhor são os momentos oferecidos à desmistificação do insuportável.
Mesmo que amanhã me desapareça toda esta (hiperbólica?) felicidade, o beijo à noite terá tido sempre o seu merecimento.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Belos Factos Solnádicos


Facto: nunca achei piada ao senhor (e depois do que li, mais senhor o acho) nos seus dignos esforços de nos alegrar. Facto: isso não vem ao caso. Facto: os bolds que coloquei na transcrição não deixam margem para a mais mínima dúvida quanto à verdadeira, genuína e lúcida capacidade afirmativa do senhor. Facto: o sorriso que costuma assomar-lhe ao sereno rosto é mesmo sinal da valorização que faz da felicidade e que quer ver distribuída justamente por outras pessoas. Facto: a genuinidade, como se vê, é mesmo uma questão de aceitação. Facto: temos lição de cidadania, simplesmente porque cada um de nós tem que ser respeitado (para quê dizer mais?). Facto: Melhor tacada aos (agora digo eu: ditos) políticos não podia haver. Facto: o senhor percebe e traduz o Princípio da Igualdade de forma brilhante, porque imediata. Facto: fecha a entrevista com a prova mais cabal do que diz entender, porque a adopção em nada lhe faz confusão. O entrevistador é que não foi capaz de acompanhar a rapidez intelectual do senhor, porque não havia que perguntar se adoptar lhe provocava mais dúvidas (o que vinha antes, já o senhor tinha mostrado, não lhe colocava dúvida nenhuma, logo não havia que perguntar pelo mais). Via que proponho: um wokshop obrigatório com o senhor na Assembleia da República, o mais rapidamente possível.

Raul Solnado em entrevista à Notícias Sábado, 145, 10 de Outubro

Defendo o casamento homossexual”

- sei que o casamento entre dois homens ou entre duas mulheres faz confusão a muita gente, mas para mim o que é importante é que duas pessoas sejam felizes;

- aceito [o casamento entre homossexuais] porque entendo. A gente não pode entender se não aceita. Entendo lindamente. Não me faz confusão nenhuma que duas pessoas do mesmo sexo se amem […]. E cada cidadão tem que ser respeitado.

- Estamos em ano pré-eleitoral. Só falta vontade política.

- As pessoas não são melhores ou piores consoante a sua orientação sexual.

E a adopção provoca-lhe mais [?] dúvidas?
Não, nada. Há tanta criança abandonada que vai ser perdida… não percebo, sinceramente. Dois homossexuais ou duas lésbicas podem dar tanto amor como uns pais ditos normais. Isto vem nos livros, estou farto de ler estudos sobre isto. É tudo uma questão de hábito. As crianças precisam é de amor e carinho.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobrevoar em Escuta


Quando ouves, sobes ao céu, desces aos vales da solidão acompanhada, viras e reviras tudo o que julgavas conhecer da vida, dás por ti a esvoaçar as planícies sobre as quais queres pairar mesmo que não saibas o que dali virás a avistar, enches o coração de lembrança e de sonho acordado, lacrimejas na sombra presente do amor que te trouxe até esta prenda, pões-te em causa nas causas que a vida julgou ensinar-te, agradeces a uma deusa tocante a graça que o seu coração lhe sabe reflectir nas mãos, repetes a experiência, questionas se é já um vício, não ressacas se o for, alimentas-te de uma outra forma de alimento, fechas os olhos e, enfim, vês o mundo mais cheio do que aquele em que todos os dias te moves em esquecimento de uma música assim.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Cuidar


Cuidar tem implicações vocabulares que podemos roubar ao dicionário.
Se transitivo o verbo, é de imaginar, de supor, de meditar, de reflectir sobre algo ou alguém que o vocábulo se faz. Que se faz a necessidade de olharmos a sombra de quem ternamente nos sobrevoa e de lhe reconhecer a imaginação de não querer ser apenas imaginado, não ser apenas suposto, mas real, meditante e reflectido no amor que nos dá. Tenho em mim o vocábulo assim inscrito, ao tê-lo em carne e osso de um anjo.
Quando intransitivo, é de trabalhar, de tratar, de ter cuidado ou de interessar-se que se veste o verbo. Pelo que intransitivo é também o anjo, a trabalhar sobre o trabalho de um dia, para tratar com o cuidado que é tão seu, num interesse sem interesses, mas que interessa pela comoção que me assoma aos olhos.
No fim destas possibilidades vocabulares, é sobre nós que cuidar, assim dado pelos anjos, se pode fazer pronominal. Quando nos imaginamos (com os anjos), quando nos julgamos (sem bárbaros juízos que nos afastem dos anjos), quando nos acautelamos (no merecimento das asas), quando sabemos que damos trabalho. Que damos trabalho na exacta medida do trabalho a que nos dedicamos, para que o sopro sobre as asas as faça esvoaçar, sem nunca deixar que se quebrem.
A ti, anjo.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Conversa


Nem sempre vale a pena conversar. Mas seguramente esta foi uma das vezes em que encontrei sentido para que o fizéssemos. A negra atmosfera, depois do colorido cinematográfico, que não deixa de mostrar o menos colorido, trouxe-nos à cor em que ainda vivemos. Trouxe-nos ao negro que envolve vidas vividas e outras que tentam acompanhá-las. Trouxe-nos ao negro dos insuportáveis processos que não se processam, ao negro da incessável procura de nós quando não nos servem algumas impostas peles, ao negro das tantas impossibilidades de dizer que estamos aqui. Fez-se mais negra a cor pelo silêncio de nós, que é sempre silêncio perante o grito de quem se recusa a vestir o que não lhe assenta. Por haver quem tivesse gritado, uma e outra vez, no aviso do possivelmente repetido medo, sem justa justiça, sem eco audível quando genuinamente consideradas as dores.
Por isso tentámos colorir. Com lápis de desejável lei, de contra-corrente à repressiva responsabilização psiquiatrizante, de dizeres críticos que nos façam sentir as dores e revolvê-las, de um encantado(r) exemplo de mudança.
No fim da conversa, o coração cheio. Banhado em aquário também meu. Com estes e outros peixinhos. Que o coração, de cor vermelha, guarda vivos e a quem gostaria de dar águas mais doces.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Mais Arco-Íris


Foi muito mais do que possa dizer-se em poucas palavras. Mas seguramente um sentido de que (me) valeu muito. Um punhado de gente com vontades discutiu, no literal e no metafórico sentido da discussão, a transexualidade. Melhor dizendo, discutiu o que pode encarar-se como a ética com (e não na) transexualidade: que é a do respeito pela forma como a mesma se vive e, logo, a de como achamos nós perceber que ela é vivida. A intenção maior foi, que outra não seria ética, a de ajudar a pintar afirmativamente mais uma cor, feita de tantas dentro dela, de arco-íris.
Num agradecimento sincero e (sinto que) recíproco a quem se quis juntar, sob a sempre sabedora mão de quem organiza coisas assim e que na história, pelo menos de nós, ficarão.