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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quem continua a dizer que é feio!!!????



Depois de já ter dito isto, isto ou isto, há-de estar para vir quem me convença, olhando a foto publicada numa excelente reportagem sobre a Diva no Ípsilon de hoje, que fumar é feio!
Venham os argumentos (e, claro, não vale contra-atacar com o facto de poder matar, que contra isso obriga a lógica que nada diga).

Linda!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Amores e Lua


Dois anos fazem-se de meses que se desdobram em dias e em horas. Fazem-se das imperfeições e das maravilhosas descobertas do quanto alguém pode representar-nos a perfeição. Que é sempre humana e por isso, pois, inventada no que o coração quer dar-nos de engano à imperfeição. Dois anos são o ventre simbolizado do que dois seres amados querem gerar, do que podem gerar, dos medos que a pouco e pouco querem abortar para que o fruto lhes caia nos braços com um encanto crescente. Dois anos são a vida que cada um pode neles colocar, mas são também a contenção do que não se quer gratuitamente gerado, como um dos dois amantes foi capaz de afirmar. Dois anos são-nos a igualdade, esteja ela em papel ou não, esteja ela sempre no desejo do coração. Dois anos são-nos a diferença, trazida ao seu máximo esplendor na aceitação a que os dois amados se obrigam, à espera de que não se obriguem. Somos assim, nós, estes dois e o que de nós nasce já para além de nós. Somos os dois anos de amor, os vinte e quatro meses de sol e de chuva, os 730 dias de incógnitas diminuídas, as 17520 horas de presença e de ausência tão necessária quanto saudosa e os milhões de minutos que dois anos fazem esquecer como terão sido, sem esquecer que o foram. Porque os homens não são promíscuos se não quiserem (apesar de poderem) sê-lo, porque podem desejar-se ardente e construtivamente, porque casam de muitas maneiras. Mas sempre válidas estas formas todas de casar, se os anos, os dias, as horas, os minutos e os segundos souberem tiritar na vida que um papel nem sempre promete ou consegue honrar, mas que sempre existe em vida como prova mais cabal de que o amor não tem que ter sexo nem género. Perceber isto será, certamente, deixar o mundo (e quem o constrói na melhor das esperanças) no sossego prateado de uma lua como a que hoje, tão cheia, brindou aos anos que quisemos celebrar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Esquecer o 15


Hoje cheiraste a rosas. Cheiraste à vontade adormecida do abraço. Hoje cheiraste ao desejo das pétalas. Suspiraste em cada um dos movimentos escurecidos pela necessidade de mais um dia. Continuaste a fazer-te de rosas, desfloráveis nos sonhos tacteantes. Foste um horizonte a escurecer-se. Hoje cheiraste à lembrança, camuflada em meigo apelo, de outras escritas sobre todas as rosas. Estiveste suave, como sempre te fazes. Hoje foste a embarcação carregada de ti. Carregada de rosas. Seguindo esquecido de teres esquecidos as rosas. Porque hoje cheiraste ao que não podes deixar de ser.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Dedos


Os dedos dizem à pele

O que os dedos sentem

O que o coração sossega

Já a saber-se nos dedos


Na ponta dos dedos

Fazemos o tempo

Fazemos os sonhos

Que repetem nos dedos

O que os sonhos prometem


Os dedos dizem ao tempo

Que é em sonhos que vemos

O que ao tempo fazemos

O que aos dedos prometemos


A sabermos que os dedos

Sabem tocar-nos os medos

Sabem fazer-nos no tempo

Todos os dedos que temos

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Genetismo


Porque tantas vezes nos esquecemos do que há tanto tempo está já escrito, fica Genet, na sua sempre tão bela escrita. Porque a sua vitória foi verbal, assim o disse; porque da sumptuosidade das palavras se socorreu; porque ter-se socorrido foi uma bênção para nós, se abençoados formos na compreensão de que a masculinidade nunca passou de um mar de fragilidades, de uma prisão de que só escapamos em ballet.


Ei-lo, há mais de 50 (cinquenta!) anos, numa passagem como só ele saberia tecer, como só ele saberia construir a partir da vida que reservada lhe esteve. Para fazer-nos chorar… e por mais.

Culafroy passeava entre lençóis, descalço. Vivia minutos leves como minuetes, feitos de inquietação e ternura. Chegou a aventurar-se num passo de dança em pontas, mas os lençóis formavam paredes suspensas e corredores, os lençóis imóveis e dissimulados como cadáveres uniam-se e podiam encarcerá-lo e estrangulá-lo. (…) Se tocasse o chão apenas com um gesto ilógico do pé esguio estendido, poderia tal gesto fazê-lo soltar-se, deixar a terra e atirá-lo por entre mundos de onde não voltaria, ao espaço onde nada poderia fazê-lo parar. Pousou de planta inteira o pé no chão, para lhe conferir uma segurança maior. (…) Aquela criança que nunca tinha visto um bailarino, nunca tinha visto teatro nem actor, com um sentido divinatório espantoso compreendeu um artigo de página inteira que só tratava de figuras, entrechats, battus-jettés, tutus, sapatilhas, tela, rampa e ballet. Pelo aspecto da palavra Nijinsky (a haste do N, a descida da argola do j, o salto da argola do k e a queda do y, forma gráfica de um nome que parece empenhado em desenhar o impulso com recaídas e pulos no palco de saltador que não sabe sobre qual dos pés pousar) adivinhou a leveza do artista, como um dia virá a saber que Verlaine não pode deixar de ser um nome de poeta-músico. Aprendeu sozinho a dançar, como aprendera sozinho a tocar violino. Dançou, portanto, como tocava. Todos os seus actos foram servidos por gestos, não ao serviço daqueles, mas de uma coreografia que lhe transformava a vida num ballet perpétuo. Rapidamente se pôs em pontas e em todo o lado: no talho, quando apanhava achas de lenha, no pequeno estábulo, debaixo da cerejeira… Punha os tamancos de lado e dançava em cima da erva com peúgas de lã preta, de mãos presas à ramaria mais baixa. Na vida, povoou os campos com uma multidão de figuras que queriam passar por bailarinas de tutu de tule branco, que se mantinham um menino de escola pálido, de bibe preto, a procurar cogumelos e dentes-de-leão. (…)


Nossa Senhora das Flores

Jean Genet, 1951

(Difel, 1987; Trad: Aníbal Fernandes)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Pequena Ode a um Anjo


A noite é fria e da janela vejo um negro. Vejo as lamúrias em repetição quotidiana sobre o que teremos que continuar a viver, sobre a crise que é a repetição de se falar em crise. Vejo o fumo do meu cigarro desvanecer-se sobre o fosco translúcido do vidro que me abre a noite. Vejo a lembrança de mais um dia concorrido pelos rostos desiludidos que nos rodeiam, assim como vejo o brilho lembrado de quando acreditávamos mais nos olhos brilhando. O negro tem ainda uma ténue esperança de azul, que cada um de nós saberá (ou desejará saber) onde ir buscá-la. Mas sobre todos os negros vejo um anjo. Vejo-o entrelaçado entre o frio, entre o negro, entre os brilhos que mais do que lembrados me são presente, entre as tantas coisas que não deixa que deixem de me ser coisas, entre o que entre mim e ele se faz como espaço de vôo conjunto. Não sou mais nem menos do que qualquer um de vós por me ver abraçado por um anjo, tal como com ele consigo não ser mais nem menos do que as asas que mereço. Acreditar num anjo é a lanterna que me ajuda a vislumbrar um bocadinho mais de azul no negro olhado da janela. O mundo continua a ser bem mais imenso do que a beleza de um anjo, mas sem ele certamente me seria bem menos imenso. E, a defraudar o poeta, apetece-me dizer: Boa noite. Eu vou com o anjo.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Flores


Ele veio nas flores
Elas, tantas
Como dele, tanto

O mar é de odores
A que sabem as flores
Como se sabe o canto
Cantado nas cores

Ele veio nas flores
Com elas, tanto
E com ele, o canto

Tocado em amores
De que se fazem as flores
Para que sejam tanto
Quanto os meses de (en)canto


(em atraso dos habitualmente celebrados dias 6)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Requiem para Lisboa


Se Lisboa fosse um Requiem, tê-lo-íamos escrito mais belo do que muitos. Na chuva dos dias que nela houve, houve o céu limpo que lhe oferecemos, houve o abraço da chegada, que é sempre como se não o fosse porque estávamos já lá. Se Lisboa fosse um Requiem, as primeiras notas soariam baixinho no cuidado de acolher, em sobretudo cor de mel, em sorrisos cicerónicos que nos abrigam de muitas chuvas, no caldo verde a saber à felicidade com que enganámos a morbidez da composição. Se Lisboa fosse um Requiem, haveria gente cantando na brancura de uma casa onde pão e vinho sobre a mesa se abriu a gentes que traziam vestidos e a outras tantas gentes que sabem vesti-los. Haveria gente feliz a percorrer um bairro tão alto quanto a vontade de subir ao céu e de nele nos encontrarmos um dia sentados, sem anos contados, sem deuses maiores do que nós, com anjos como os que buscamos nos dias e nas noites ou com diabos sem género mas de pele e de alma frescas. Se Lisboa fosse um Requiem, teria jantares maravilhosamente servidos no bairro ainda alto, teria éter a fazer continuar o céu que lhe inventámos, só para descer ao feliz inferno de um cubículo onde outras gentes vivem de esvoaçados vestidos, só para sorrirmos nas gotas, feitas mais de éter que de chuva, de molhados desejos, nesse inferno ou noutros, procurados na retaguarda de um carro, num quarto com um adónis azulado em quadro que a noite veste de cobalto, nas mãos de um rapaz que inferniza um tão querido tio pelas palavras que não lhe dirige depois de tocá-lo. Se Lisboa fosse um Requiem, não saberia senão ver-se enganada no prenúncio da morte, ou não fossem imensamente nossos o sorriso e o gesto insistentes da Tarantella, o breve e sabido fingimento de sermos aqueles que não morrem nunca. Se Lisboa fosse um Requiem, teria um fim tão saudoso quanto mascarado: de Genet cantando amor, de Rufus-Judy ondulando as mãos como Amália, de um porno-terno a explicar porque há quem nos ame e quem não nos ame mais, de um telhado de onde pudemos ver o rio a que quereremos sempre voltar, de um tio que nos aquece a casa para nos recompor a partitura e nos fazer cantar menos mal. Se Lisboa fosse um Requiem, seria feita de nós, que nela fomos tanto quanto a vontade de sermos quem somos. Avé.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mestiça Salamanca


Salamanca foi destino. Como sempre, refez-me o coração, aquecido em tanto frio pelo presente quente de M(i)M(i). Ficam repetidamente as imagens das rendas que cobrem os maravilhosos edifícios, ficam os círculos sociais que invejo na sua “movida” mesmo sendo a cidade pequena, ficam as (enviesadas) saudades que o país vizinho não desiste de me provocar.
Mas fica também o recuerdo de um artigo assinado por Armas Marcelo no diário ABC, tendo por título A Leitura da Crise. Não é que me tenha trazido algo de verdadeiramente novo, mas trouxe-me algumas reflexões que um excerto como o que se segue pode comprovar como fortes e desafiantes: “tenho para mim que muitos dos actuais protagonistas da cultura crêem que o multiculturalismo é uma cultura por cima de outra, todas em paz e dançando uma rumba internacionalista e não, como de facto é, o inimigo maior da integração e da mestiçagem. Sem a mestiçagem não vamos a lado nenhum no presente nem no futuro, tal como não teríamos podido chegar a nenhuma parte no passado. Sem a mestiçagem chegamos ao limite nacional, bailamos e cantamos o nosso folclore e, contentes com a guerra, vamos de seguida para casa alimentando a mentira. A Humanidade é mestiça e a cultura é filha de mil pais que foram acumulando, fusão sobre fusão, os seus conhecimentos e a aplicação destes até chegarem ao mundo de hoje. A mestiçagem, esse inimigo do multiculturalismo, é a integração e a contaminação benéfica, opõe-se à fronteira e tende, irreversivelmete, a atrair os necessários contrários”.
Porque também eu havia já mostrado a minha comoção com a mestiçagem, com o que ela nos pode dar de salvação e com a bárbara limitação que tantas pessoas lhe impõe.
Espanha é-me de coração, inclusive por nela haver quem se pronuncie sobre o que a tod@s nos cabe pronunciar.

Olé!

sábado, 22 de novembro de 2008

Noite


Apeteceu-me apenas dar um beijo à noite. Depois de um dia em que um casamento teve a bondade de me devolver a saudade do meu amor, em que um anjo de olhos claros se sentiu a quase terminar um projecto comigo, em que dois amigos fizeram as rosas menos escuras só por estarem ali, na celebração (das torturas desvanecidas) de uma tese e na oferenda de uns líquidos etílicos, em que afinal a vida mais uma vez comprova que o que tem de melhor são os momentos oferecidos à desmistificação do insuportável.
Mesmo que amanhã me desapareça toda esta (hiperbólica?) felicidade, o beijo à noite terá tido sempre o seu merecimento.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobrevoar em Escuta


Quando ouves, sobes ao céu, desces aos vales da solidão acompanhada, viras e reviras tudo o que julgavas conhecer da vida, dás por ti a esvoaçar as planícies sobre as quais queres pairar mesmo que não saibas o que dali virás a avistar, enches o coração de lembrança e de sonho acordado, lacrimejas na sombra presente do amor que te trouxe até esta prenda, pões-te em causa nas causas que a vida julgou ensinar-te, agradeces a uma deusa tocante a graça que o seu coração lhe sabe reflectir nas mãos, repetes a experiência, questionas se é já um vício, não ressacas se o for, alimentas-te de uma outra forma de alimento, fechas os olhos e, enfim, vês o mundo mais cheio do que aquele em que todos os dias te moves em esquecimento de uma música assim.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Cuidar


Cuidar tem implicações vocabulares que podemos roubar ao dicionário.
Se transitivo o verbo, é de imaginar, de supor, de meditar, de reflectir sobre algo ou alguém que o vocábulo se faz. Que se faz a necessidade de olharmos a sombra de quem ternamente nos sobrevoa e de lhe reconhecer a imaginação de não querer ser apenas imaginado, não ser apenas suposto, mas real, meditante e reflectido no amor que nos dá. Tenho em mim o vocábulo assim inscrito, ao tê-lo em carne e osso de um anjo.
Quando intransitivo, é de trabalhar, de tratar, de ter cuidado ou de interessar-se que se veste o verbo. Pelo que intransitivo é também o anjo, a trabalhar sobre o trabalho de um dia, para tratar com o cuidado que é tão seu, num interesse sem interesses, mas que interessa pela comoção que me assoma aos olhos.
No fim destas possibilidades vocabulares, é sobre nós que cuidar, assim dado pelos anjos, se pode fazer pronominal. Quando nos imaginamos (com os anjos), quando nos julgamos (sem bárbaros juízos que nos afastem dos anjos), quando nos acautelamos (no merecimento das asas), quando sabemos que damos trabalho. Que damos trabalho na exacta medida do trabalho a que nos dedicamos, para que o sopro sobre as asas as faça esvoaçar, sem nunca deixar que se quebrem.
A ti, anjo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Alguma Coisa do Mar (ou de Mim)


Foi precisamente assim. Em tempos de mar. Em tempos de saudade.
Numa ilha do Atlântico.
Mais uma vez, obrigado Ana, pela sabedoria das palavras.

Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar

E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Clara, noite rara,
nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar

E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Ana Carolina
Eu Que Não Sei Quase nada do Mar

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Todos os Beijos que Quisermos




Facto é que M(i)M(i) partiu hoje, em viagem de merecidíssimo descanso para terras distantes. São sempre distantes, para quem sente a estreiteza do coração. A alegria foi imensa, como é sempre a de quem ama e se alegra com o que alegra outrem. Mas não deixa de esconder a tristeza da despedida. Que é, por definição, custosa, mas para algumas e alguns de nós mais do que para outras e outros.

E é assim que a parca cidadania que (nem sequer) nos assiste assoma aos olhos lacrimejantes que se fazem, paradoxalmente, tanto da despedida quanto da impossibilidade de a consumar livremente. Defendo, sem qualquer arrogante capa de inédita descoberta, que é aqui que mais falhamos, porque é aqui que mais nos obrigam à contenção: no beijo “apaixonado”, “romântico”, “amoroso” (as designações importam-me bem menos que a substância do beijo). Olhem à volta e digam-me quantos beijos viram ser dados em público nos últimos tempos. Quantos beijos viram ser dados desde que se lembram de ver beijos (vá a vossa memória até onde consiga ir). Digam-me, depois disso, quantos viram ser dados entre não-“normativas” gentes. Não encontro forma melhor de designar estes “outros” que costumam ser os “mesmos”, que são tão repetidamente os mesmos (o plural se encarrega de dar conta do heterossexismo e da "compulsão para a heterossexualidade”) . Não quero, claro está, rebaixar, por um milímetro de existência que seja, a beleza que podem (eu disse: podem) ter os beijos destes “outros mesmos”.
O que eu quero, mas o que eu quero mesmo, é que a mais internalizada democracia (tenho tentado que a expressão seja inédita!) comece pela celebração do beijo entre “outras” e “outros” que não os “mesmos”. Que não tenhamos mais que pedir (não ao gato, mas aos ditos concidadãos) que não nos denunciem, que não nos limitemos às paredes para confessarmos de quem gostamos (ou, mais até, que nem precisemos de confessar). O que eu quero mesmo, mas mesmo, é que o bater do coração não esteja condenado ao silêncio, que o beijo prometido - o meu a M(i)M(i) ou de quem quer que seja a quem quer que seja – não apenas se traga ou se leve, mas que se traga e que se leve como quisermos e não como e/ ou onde pudermos. Que não tenhamos de espreitar por portas encostadas para vermos os beijos, todos os beijos que quiserem ser dados. Sem isto conseguido, não me parece que a cidadania possa alguma vez ser (também) nossa.

Eu só quero, afinal, que as despedidas e os reencontros não nos obriguem a falhar nisto: impedir que o beijo se prenda e encorajar que o beijo se solte.
Porque nada menos que cidadania de TODOS os beijos.

PS1 – a fotografia é escolhida (depois de pela primeira vez a ter visto no elgêbêtê) pela beleza que sempre lhe reconheci, que a trouxe à visão quotidiana na minha sala e não por qualquer enaltecimento classista.
PS2 – gostava muito de perguntar à Catarina Furtado em quem se inspirou para a escrita de tão retratante poema.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Instantes há de inveja...


... de quem escreve assim. Instantes que logo se desfazem na lembrança de quem me dá a substância mais viva a estas tão, mas tão belas palavras.


PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
Às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
É também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
Pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira

sábado, 28 de junho de 2008

Poema Tardio


O poema persiste na noite da vida
Como se de noite se fizesse mais fácil
O sol ardente do arrastado dia

Persiste a vida no apagar da noite
Em crepúsculo tão ardente
Como és tu a fazer teimar o poema

Cerrados os olhos no branco baço
Do enrugado pano em que te abraço

Não possam as ninfas trair-nos a noite
A prometer o dia para a desmentir o poema

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Escrita Ensonada


Não acredito que alguém possa escrever o que não vive. Não acredito que alguém possa escrever por dentro sem a pulsação arrepiante do que vem, em maior ou menor distância, do que acreditamos ser por fora de nós. Entendi hoje que o sono me é pulsação e arrepio dos mais vívidos: o de nos deixarmos partir ao abandono de nós, na exacta medida em que deixamos partir ao abandono quem amamos. O sono revela-me muitos dos porquês da escrita: ou porque nos mantém vivos no desespero de não o alcançarmos, ou porque nos certifica que o desejamos intensamente quando conseguimos que seja repousante, ou porque nos leva a esquecermo-nos dele quando nos repôs grande parte da vida, ou porque nos obriga ao abandono de quem mais amamos para que dormindo esteja ainda mais connosco.
O sono torna necessariamente diáfana a fronteira entre o que está por dentro e o que está por fora de nós. Porque a voz arrastada que o prepara pode às vezes fazer pulsar muito mais do que algumas das vozes que vigilantemente produzimos. No abandono mutuamente consentido. No fim do desespero que anuncia. Na estreiteza dos braços superficialmente inertes mas profundamente entrelaçados. Ou nas fronteiras que apostarmos em dissolver.
Para que eu continue a acreditar no porquê de muitas escritas.
Chíuuuuuuuuuuuu...

domingo, 20 de abril de 2008

O Menino Quase-Grande


Há um menino que faz hoje anos. É um menino lindo. Sabe ler-me na alegria e na tristeza. Sabe escolher as músicas que mais me enternecem, os livros que mais me ensinam, as fotografias que melhor emolduram a certeza de estarmos vivos. É também menino no docíssimo pestanejar com que cerra as pálpebras, as do rosto e as da alma. O menino que faz hoje anos, promete-se e promete-me nos beijos que me dá e nos que me pede. Houve outro menino que me ensinou que alguns de nós não são pequeninos, são quase-grandes. E é esta a beleza do menino que faz hoje anos: a de teimar em ser quase-grande e em conseguir que eu seja quase-pequenino.

Só nos sobra continuar a trazer aos lábios, ao peito e ao céu que roubamos estes e outros quases.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O Amor é um Nevoeiro


Vejo o amor como nevoeiro e a vida como ensaio de comprovação desta teoria. Há na ideia tanto de belo quanto de indecifrável: vamos caminhando numa neblina que se prenuncia, que se avista de longe mas que sabemos que é inevitável ir-se aproximando de nós. Há faróis que disfarçam a impossibilidade de entrada na névoa, mas também há utópicas histórias que só se engrandecem depois de entrarmos em todos os crepúsculos e em todas as ofuscações a que a neblina, de tão incontrolavelmente tentadora, nos convida. Nunca saberemos como nem porquê entramos no amor, porque nunca saberemos como nem porquê saímos dele. E tanto faz que entrar e sair seja um movimento à procura do mesmo objecto de amor, como um movimento entre objectos diferenciados. Porque a busca é igualmente turva e, sejamos ou não capazes de dizê-lo, necessária a um ar denso que amar transforma em ilusão de leveza. O amor vai ao miolo mais ínfimo dos ossos, entranha-se neles para apertar o coração, humidifica a secura em que insistentemente quisemos enganar-nos. O amor embacia a luz do quotidiano para dar mais brancura à adivinhação de quem amamos. Ficamos aí, nesse labirinto turvo, incapazes de situar a entrada e querendo evitar a saída até à eternidade.
A sorte, se se lembra de nós, ampara-nos na condução do nevoeiro, que por si é já sorte se nele nos deixar entrar. A sorte estende-nos mãos sebastianinas que a (nossa) História reconhece mais pela vida do que pelos livros. Em tempo de ofuscação mais cerrada, duas mãos de mulher abraçaram-me em olhar, outras duas de homem beijaram-me em ternura e tocámos virtuosamente os andamentos. Adagio, essa direcção mais luminosa da vida. Allegro, soando como hino ao nevoeiro. Allegro ma non troppo, que é o farol dando sinais da mais viva pulsação. Vivace, ou o convite a uma dança eterna no nevoeiro que queremos que continue a envolver-nos. Sei que tocámos em uníssono. Que demos ao tempo do encontro todo o torpor de sermos amados. Se tudo isto tiver sido ilusão, cumprimos a função do amor. Que é a de nos agarrar com persistência ao fingimento convicto de não encontrar a saída. Ou de perder cada vez mais a razão da entrada.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

La Plus Tendre Sagesse


Como só o encontro com M(i)M(i) permitiu.



Plusieures formes, couleurs et parfums ont pris mon rêve de ce que je pensais de l’amour.
Sauf que c’est juste avec toi que j’ais compris la beauté de le vivre au jour le jour.
A toi.