
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Quem continua a dizer que é feio!!!????

quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Amores e Lua

terça-feira, 14 de abril de 2009
Esquecer o 15

terça-feira, 7 de abril de 2009
Dedos
Os dedos dizem à pele
O que os dedos sentem
O que o coração sossega
Já a saber-se nos dedos
Na ponta dos dedos
Fazemos o tempo
Fazemos os sonhos
Que repetem nos dedos
O que os sonhos prometem
Os dedos dizem ao tempo
Que é em sonhos que vemos
O que ao tempo fazemos
O que aos dedos prometemos
A sabermos que os dedos
Sabem tocar-nos os medos
Sabem fazer-nos no tempo
Todos os dedos que temos
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Genetismo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Pequena Ode a um Anjo
A noite é fria e da janela vejo um negro. Vejo as lamúrias em repetição quotidiana sobre o que teremos que continuar a viver, sobre a crise que é a repetição de se falar em crise. Vejo o fumo do meu cigarro desvanecer-se sobre o fosco translúcido do vidro que me abre a noite. Vejo a lembrança de mais um dia concorrido pelos rostos desiludidos que nos rodeiam, assim como vejo o brilho lembrado de quando acreditávamos mais nos olhos brilhando. O negro tem ainda uma ténue esperança de azul, que cada um de nós saberá (ou desejará saber) onde ir buscá-la. Mas sobre todos os negros vejo um anjo. Vejo-o entrelaçado entre o frio, entre o negro, entre os brilhos que mais do que lembrados me são presente, entre as tantas coisas que não deixa que deixem de me ser coisas, entre o que entre mim e ele se faz como espaço de vôo conjunto. Não sou mais nem menos do que qualquer um de vós por me ver abraçado por um anjo, tal como com ele consigo não ser mais nem menos do que as asas que mereço. Acreditar num anjo é a lanterna que me ajuda a vislumbrar um bocadinho mais de azul no negro olhado da janela. O mundo continua a ser bem mais imenso do que a beleza de um anjo, mas sem ele certamente me seria bem menos imenso. E, a defraudar o poeta, apetece-me dizer: Boa noite. Eu vou com o anjo.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Flores
Ele veio nas flores
Elas, tantas
Como dele, tanto
O mar é de odores
A que sabem as flores
Como se sabe o canto
Cantado nas cores
Ele veio nas flores
Com elas, tanto
E com ele, o canto
Tocado em amores
De que se fazem as flores
Para que sejam tanto
Quanto os meses de (en)canto
(em atraso dos habitualmente celebrados dias 6)
domingo, 4 de janeiro de 2009
Requiem para Lisboa
Se Lisboa fosse um Requiem, tê-lo-íamos escrito mais belo do que muitos. Na chuva dos dias que nela houve, houve o céu limpo que lhe oferecemos, houve o abraço da chegada, que é sempre como se não o fosse porque estávamos já lá. Se Lisboa fosse um Requiem, as primeiras notas soariam baixinho no cuidado de acolher, em sobretudo cor de mel, em sorrisos cicerónicos que nos abrigam de muitas chuvas, no caldo verde a saber à felicidade com que enganámos a morbidez da composição. Se Lisboa fosse um Requiem, haveria gente cantando na brancura de uma casa onde pão e vinho sobre a mesa se abriu a gentes que traziam vestidos e a outras tantas gentes que sabem vesti-los. Haveria gente feliz a percorrer um bairro tão alto quanto a vontade de subir ao céu e de nele nos encontrarmos um dia sentados, sem anos contados, sem deuses maiores do que nós, com anjos como os que buscamos nos dias e nas noites ou com diabos sem género mas de pele e de alma frescas. Se Lisboa fosse um Requiem, teria jantares maravilhosamente servidos no bairro ainda alto, teria éter a fazer continuar o céu que lhe inventámos, só para descer ao feliz inferno de um cubículo onde outras gentes vivem de esvoaçados vestidos, só para sorrirmos nas gotas, feitas mais de éter que de chuva, de molhados desejos, nesse inferno ou noutros, procurados na retaguarda de um carro, num quarto com um adónis azulado em quadro que a noite veste de cobalto, nas mãos de um rapaz que inferniza um tão querido tio pelas palavras que não lhe dirige depois de tocá-lo. Se Lisboa fosse um Requiem, não saberia senão ver-se enganada no prenúncio da morte, ou não fossem imensamente nossos o sorriso e o gesto insistentes da Tarantella, o breve e sabido fingimento de sermos aqueles que não morrem nunca. Se Lisboa fosse um Requiem, teria um fim tão saudoso quanto mascarado: de Genet cantando amor, de Rufus-Judy ondulando as mãos como Amália, de um porno-terno a explicar porque há quem nos ame e quem não nos ame mais, de um telhado de onde pudemos ver o rio a que quereremos sempre voltar, de um tio que nos aquece a casa para nos recompor a partitura e nos fazer cantar menos mal. Se Lisboa fosse um Requiem, seria feita de nós, que nela fomos tanto quanto a vontade de sermos quem somos. Avé.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Mestiça Salamanca
Mas fica também o recuerdo de um artigo assinado por Armas Marcelo no diário ABC, tendo por título A Leitura da Crise. Não é que me tenha trazido algo de verdadeiramente novo, mas trouxe-me algumas reflexões que um excerto como o que se segue pode comprovar como fortes e desafiantes: “tenho para mim que muitos dos actuais protagonistas da cultura crêem que o multiculturalismo é uma cultura por cima de outra, todas em paz e dançando uma rumba internacionalista e não, como de facto é, o inimigo maior da integração e da mestiçagem. Sem a mestiçagem não vamos a lado nenhum no presente nem no futuro, tal como não teríamos podido chegar a nenhuma parte no passado. Sem a mestiçagem chegamos ao limite nacional, bailamos e cantamos o nosso folclore e, contentes com a guerra, vamos de seguida para casa alimentando a mentira. A Humanidade é mestiça e a cultura é filha de mil pais que foram acumulando, fusão sobre fusão, os seus conhecimentos e a aplicação destes até chegarem ao mundo de hoje. A mestiçagem, esse inimigo do multiculturalismo, é a integração e a contaminação benéfica, opõe-se à fronteira e tende, irreversivelmete, a atrair os necessários contrários”.
Porque também eu havia já mostrado a minha comoção com a mestiçagem, com o que ela nos pode dar de salvação e com a bárbara limitação que tantas pessoas lhe impõe.
Espanha é-me de coração, inclusive por nela haver quem se pronuncie sobre o que a tod@s nos cabe pronunciar.
sábado, 22 de novembro de 2008
Noite

Mesmo que amanhã me desapareça toda esta (hiperbólica?) felicidade, o beijo à noite terá tido sempre o seu merecimento.
domingo, 12 de outubro de 2008
Sobrevoar em Escuta

quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Cuidar

Se transitivo o verbo, é de imaginar, de supor, de meditar, de reflectir sobre algo ou alguém que o vocábulo se faz. Que se faz a necessidade de olharmos a sombra de quem ternamente nos sobrevoa e de lhe reconhecer a imaginação de não querer ser apenas imaginado, não ser apenas suposto, mas real, meditante e reflectido no amor que nos dá. Tenho em mim o vocábulo assim inscrito, ao tê-lo em carne e osso de um anjo.
Quando intransitivo, é de trabalhar, de tratar, de ter cuidado ou de interessar-se que se veste o verbo. Pelo que intransitivo é também o anjo, a trabalhar sobre o trabalho de um dia, para tratar com o cuidado que é tão seu, num interesse sem interesses, mas que interessa pela comoção que me assoma aos olhos.
No fim destas possibilidades vocabulares, é sobre nós que cuidar, assim dado pelos anjos, se pode fazer pronominal. Quando nos imaginamos (com os anjos), quando nos julgamos (sem bárbaros juízos que nos afastem dos anjos), quando nos acautelamos (no merecimento das asas), quando sabemos que damos trabalho. Que damos trabalho na exacta medida do trabalho a que nos dedicamos, para que o sopro sobre as asas as faça esvoaçar, sem nunca deixar que se quebrem.
A ti, anjo.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Alguma Coisa do Mar (ou de Mim)
Numa ilha do Atlântico.
Mais uma vez, obrigado Ana, pela sabedoria das palavras.
Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meios seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim
Clara, noite rara,
nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei nos seus cabelos
Sua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim
Ana Carolina
Eu Que Não Sei Quase nada do Mar
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Todos os Beijos que Quisermos

Facto é que M(i)M(i) partiu hoje, em viagem de merecidíssimo descanso para terras distantes. São sempre distantes, para quem sente a estreiteza do coração. A alegria foi imensa, como é sempre a de quem ama e se alegra com o que alegra outrem. Mas não deixa de esconder a tristeza da despedida. Que é, por definição, custosa, mas para algumas e alguns de nós mais do que para outras e outros.
Eu só quero, afinal, que as despedidas e os reencontros não nos obriguem a falhar nisto: impedir que o beijo se prenda e encorajar que o beijo se solte.
PS1 – a fotografia é escolhida (depois de pela primeira vez a ter visto no elgêbêtê) pela beleza que sempre lhe reconheci, que a trouxe à visão quotidiana na minha sala e não por qualquer enaltecimento classista.
PS2 – gostava muito de perguntar à Catarina Furtado em quem se inspirou para a escrita de tão retratante poema.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Instantes há de inveja...
Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
Às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco…?
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
É também água, terra, vento, fogo…
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
Pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira
sábado, 28 de junho de 2008
Poema Tardio

Como se de noite se fizesse mais fácil
O sol ardente do arrastado dia
Persiste a vida no apagar da noite
Em crepúsculo tão ardente
Como és tu a fazer teimar o poema
Cerrados os olhos no branco baço
Do enrugado pano em que te abraço
Não possam as ninfas trair-nos a noite
A prometer o dia para a desmentir o poema
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Escrita Ensonada

O sono torna necessariamente diáfana a fronteira entre o que está por dentro e o que está por fora de nós. Porque a voz arrastada que o prepara pode às vezes fazer pulsar muito mais do que algumas das vozes que vigilantemente produzimos. No abandono mutuamente consentido. No fim do desespero que anuncia. Na estreiteza dos braços superficialmente inertes mas profundamente entrelaçados. Ou nas fronteiras que apostarmos em dissolver.
Para que eu continue a acreditar no porquê de muitas escritas.
domingo, 20 de abril de 2008
O Menino Quase-Grande

terça-feira, 15 de abril de 2008
O Amor é um Nevoeiro

A sorte, se se lembra de nós, ampara-nos na condução do nevoeiro, que por si é já sorte se nele nos deixar entrar. A sorte estende-nos mãos sebastianinas que a (nossa) História reconhece mais pela vida do que pelos livros. Em tempo de ofuscação mais cerrada, duas mãos de mulher abraçaram-me em olhar, outras duas de homem beijaram-me em ternura e tocámos virtuosamente os andamentos. Adagio, essa direcção mais luminosa da vida. Allegro, soando como hino ao nevoeiro. Allegro ma non troppo, que é o farol dando sinais da mais viva pulsação. Vivace, ou o convite a uma dança eterna no nevoeiro que queremos que continue a envolver-nos. Sei que tocámos em uníssono. Que demos ao tempo do encontro todo o torpor de sermos amados. Se tudo isto tiver sido ilusão, cumprimos a função do amor. Que é a de nos agarrar com persistência ao fingimento convicto de não encontrar a saída. Ou de perder cada vez mais a razão da entrada.
