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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Eu A(ssa)ssinei


Fazei vós o que vossa mão entenda...
Peregrinando até Aqui.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Simbolismos da Aliança


O que está em causa no debate em curso sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo não são os comportamentos nem os factos mas algo mais complexo: o poder das palavras e o edifício simbólico que elas constroem. E isso está bem patente no projecto de lei do PSD, que opta por chamar “união civil registada” e “parceiros” ao que os outros chamam “casamento” e “cônjuges”. E isto porquê? Porque uma parte da população (sobretudo, a mais católica) se sente ferida com a linguagem. Se as regras da mobilização militar nos estados unidos proibiam, até há pouco tempo, a declaração reflexiva “Eu sou homossexual” era porque isso podia ser interpretado como uma tentativa de sedução ou como uma agressão. Aceder assim a tão poderoso e antigo edifício simbólico (o casamento) pode parecer uma revolução, mas é uma revolução conservadora. Todos nos devemos regozijar com a resolução de problemas práticos e legais. Mas é preciso não esquecer que integrar a ordem do discurso a que pertencem as representações sociais do casamento significa uma submissão à linguagem que sempre procedeu pela violência e pelo poder discursivo de impor uma definição de homossexual.


Ao Pé da Letra

Sobre a ordem e o poder da palavra “casamento”
António Guerreiro
Expresso – Actual – 09 de Janeiro 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Vergílio


Porque tenho francas dúvidas de que o Via Fáctea pudesse recomeçar-se em 2010 com palavras mais sábias do que estas, num mundo e num país cada vez menos sábio.

Todo o país está podre de estagnação, vós moveis um pé no lodaçal e ficais estoirados do esforço ao fim do dia. Mas nunca vos perguntais para quê, nunca vos perguntais o que isso quer dizer, nunca vos perguntais com que direito haveis de ser boi até ao fim da vida. Parai, ó estúpidos, suspendei um momento esse vosso trabalho animal e perguntai-vos se é essa a vossa vontade, se um instante da vossa tarefa cavalar é isso com que sonhais para vosso prazer. Porque é que não fazeis aquilo que quereis? Porque é que não ergueis o vosso berro de revolta? Não falo apenas dos que suam que se fartam por um bocado de pão. Não falo apenas dos que amocham como bestas por uma tigela de caldo. Falo de vós todos, dos honrados pais de família, os honrados funcionários com um ordenado a tanto a hora da cronometragem, os honrados comerciantes de pele esverdeada dos dias sem sol, as dignas esposas zeladoras da sua castidade até que à noite o marido lhes suspenda o zelo, as donzelas com o desejo fechado a cadeado, os politiqueiros de opinião trancada e partidária, os polícias do zelo pistoleiro, os futebolistas a tanto o pontapé, jornalistas, médicos, advogados – toda a imensa manada trabalhadora que se abate sobre o país e lhe entala a movimentação. Mas falo mesmo dos tubarões do capital, banqueiros atolados em moedas que são as fezes, o excremento da ganância e da vileza, grossos empresários que quereis empresariar o mundo, o céu com a vossa fumarada, as almas com as vossas cadeias e os rios e os peixes deles com a vossa matéria excrementícia...


Vergílio Ferreira
em nome da terra

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Arejamento Democrático


“… os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha…; [a História de Portugal foi sempre] repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião”.

Jorge de Sena – Sermão da Guarda, 1977

sábado, 15 de agosto de 2009

Entre Gay e Queer...





... como já aqui se pode ler em maior extensão e por outras palavras. E como Sérgio Vitorino, que gentilmente cedeu o texto, diz tão acutilantemente.



"Eu não estou para lá da identidade. Desconstruo racionalmente, mas sou homossexual e oprimido como tal, e isso identifica-me. Uma pessoa (hetero ou homo) que não tenha sentido a homofobia na pele pode "entender" isso, mas não pode vivê-lo. E pode declarar que somos todos homossexuais, até é verdade que somos todos directa ou indirectamente alvo da homofobia, mas não pode querer apagar-me a identidade de homossexual, que é minha e não partilhada por si, e que é a pulsão básica que me junta a outras pessoas para lutar contra a homofobia, independentemente de também abraçar outras causas e de também as outras discriminações me mexerem com o sistema, mas não da mesma forma como esta me atinge e como a apreendo no quotidiano".




quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Wie Getz !!!!!?????


Brüno fez-me rir até às lágrimas. Tanto quanto me levou, como consegue fazer o melhor humor, à introspecção de seríssimas verdades. Brüno foi, para mim, a inusitada experiência de poder rir-me, como nunca, das heterossexualidades. É isso que o filme nos oferece, além de outras sérias paródias e é isso, afinal, que me faz recordá-lo como um momento em que o mundo, felizmente, me foi dado de cabeça virada para baixo. Estou cansado, como estaremos tant@s de nós, de ver gays parodiados, ridicularizados, eleitos como “o assunto”, sem que depois nada aconteça para que se perceba a intenção da paródia, da ridicularização, da eleição singularizada no encarceramento do estereótipo pobre e limitador (que o é sempre, por definição). Não vi em momento algum que este filme padecesse desse mal.
Brüno é tanta gente que conheço, mas que não se conhece como ele próprio é capaz de conhecer-se. É o exasperadíssimo explorador da fama fácil, mediaticamente enxovalhada e enxovalhante; é a orgulhosíssima vítima do mais fácil e insatisfatório materialismo, pisando todos quantos lhe destruam essa vontade; é o banalíssimo sujeito do mundo ridículo em que vivemos, um mundo mais banal do que nós mesm@s; é o passivíssimo receptor das impostas e categoriais vontades sexuais, que por impostas e redutoras serem nada representam de vontade; é o sujeito de uma psicologia que (ainda!) julga ser psicologia quando aconselha que se trate e o força à mais ridícula das encenações do que não consegue ser; é o incessantemente incapaz de ceder aos tratamentos, revertendo-os para quem mais deles precisa quando tenta tratar o que não se trata; é o soldado irritantíssimo para uma tropa cega que nunca foi capaz de encontrar-se nas irritações a que se impôs e que tiranamente impõe; é o pretensiosíssimo adoptante que pretende um gayby em vez de um baby. Digam-me, da forma mais sincera, se tudo isto é paródia gratuita e pornográfica (como algumas estreitíssimas e desatentas críticas quiseram defender), ou se é o que estamos a viver, de forma tão perigosa e historicamente tão arrastada que um humor trabalhadíssimo e arrepiante pode trazer-nos à consciência, não pelos disparates cinematográficos mas pelos disparates a que temos assistido – e não em filmes, mas em mundos que julgávamos serem já impossíveis de serem reais! Brüno atira-nos à cara o que precisamos, sem ponta de esquecimento, de ver e de ouvir: um orgulho heterossexualizado que emerge em gritos primatas, em fúrias que nunca sabemos a que ponto podem lesar (lesando sempre, mesmo que nas doses mais subtis), que ensurdece para que outros orgulhos (esses sim necessários, enquanto nos esmagarem) não sejam ouvidos, que se repete todos os dias julgando que essa repetição nos impede que dele nos possamos rir. Brüno faz-nos ver que a fama fácil, que o materialismo, que o ridículo, que as categoriais e impostas vontades, que as fingidas psicologias e as tropas, que os desnorteados ensejos de adopção mascarada de caridade, só infimamente passam pela personagem que protagoniza, porque maximamente se encontram nas personagens que a hegemonia constrói, multiplica exponencialmente, elege como centro da sua ameaçada sobrevivência e como arma de arremesso a tudo o que dela tente fugir. Brüno fez-me sentir inspiradamente livre na gargalhada motivada pela desconstrução inteligentíssima de todo@s aquel@s que, em cada instante, julgam prender-me na convicção das suas “supremacias”. Lembrando-me, na encenação gay propositada e a meu ver apenas veiculante de significados muitíssimo sérios, que a “supremacia” da fama, do dinheiro, da sexualidade, da falsa ciência, da fandanga tropa e da pseudo-caridade são, pelo menos durante noventa minutos, nada supremas, mas sim possibilidades de nos rirmos sobre o que de sério não têm ou que terão cada vez menos. Lembrando-me que fui capaz de me rir de muito, muito mais do que de uma forma de ser gay.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Marcha, II


Não sei bem o que me diz a igualdade. Nem mesmo saberei se ela é exactamente possível, ou se ela será mais possível do que a diferença que em nós habita. Sei, talvez de forma menos incerta, que há muito tempo damos por nós a balizar o pensamento e a vida entre o igual e o diferente. Como sei que é provável a chegada do momento, para alguns e algumas (se não para muitos e muitas) de nós, em que este balizamento perderá sentido.
A igualdade com que vivo é a do abraço tão necessário quanto saudoso, do beijo que apetece depois de não ter apetecido tanto, do desencontro entre o querer e o não querer, do choro e do riso quando acontecem, da subterrânea constância que o ser amado me assegura, da marcha mais ou menos recôndita mas sempre quotidiana do meu orgulho, da vergonhosa vergonha que não conseguem fazer vingar sobre mim. A igualdade com que vivo sopra no horizonte das crenças sem as quais não viveríamos, faz-se pluma no vento que é preciso alimentarmos em nós, finge apenas desvanecer-se quando nos violentam o que não queremos desvanecer e bebe da água que só o querermos ser quem somos faz jorrar. A igualdade com que vivo é incessante na insatisfação com a diferença, essa marca que impede que antes de todas as etiquetas estejamos nós, essa contra-marcha que não se deu ainda conta de que marcharemos, mais ou menos visivelmente, pelas igualdades que a passo e passo cada um e cada uma de nós saberá que lhe vai assistido.
A igualdade com que vivo seria falsa se não fosse quase infinitamente constelada de diferenças. As minhas e as de outrem, as de ontem, as de hoje e as de até. A igualdade que me move já não sabe que nomes pode ter, depois de ter tido tantos e antes de já não saber ter nenhum. Essa é a marcha mais ininterrupta que pode alimentar-nos a vida: feita do céu azul da liberdade, do esbatimento entre a igualdade e a diferença, do sorriso vingado sobre tantas e tão longas torturas, do passo tão singular quanto acompanhado, dos amores que só as miríades quase abarcam, do caminho na procura de sermos cada vez menos o que não somos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Wonderful Fuckers


Clicar aqui é uma experiência maravilhosa. Que nos faz querer dançar imensamente, tremer da cabeça aos pés no arrepio fantástico de estarmos em todo o lado, perceber que o lado menos mau dos Sarkozis talvez sejam as belíssimas roupas das Brunis, gemer de prazer por mexermos os pulsos e todas as outras partes do corpo sem a lembrança da associação de géneros, gritar ao mundo que por muito, mesmo muito que não queiram, a experiência continuará a ser nossa. Todos os dias, a repetirem este. Ou a repudiarem outros como estes.

PS - um agradecimento à amiga S pelo envio.

sábado, 25 de abril de 2009

Des-nomear o Coiso


Para boa ou bom revlucionári@, é sempre muito olhar o cravo.
E com ele comover-se.
Vermelho, "naturalmente". Rosa, por junção de causa pluralista óbvia.

Liberdade sempre, coiso nunca mais!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Tão (?) Gays!


Pois por aqui se fica a saber que...


... Somos tão (?) gays que não cabemos livremente no cinema. Somos tão (?) gays que temos sexo "demasiado forte". Somos tão (?) gays que o nosso sexo é mais forte e muito mais perigoso do que o da "norma". Somos tão (?) gays que nem precisamos de nudez frontal (?) para não cabermos nem no cinema nem na democracia. Somos tão (?) gays que suscitamos a incongruência de afinal não ser frontal mas ser de quatro. Somos tão (?) gays que não podemos querer ser sexualmente espancados. Somos tão (?) gays que ficamos entre a espada (ui... demasiado efeminados!) e a parede (ui... demasiado masculinos!) se mostrarmos que às vezes mostramos sexo. Somos tão (?) gays que arrasamos com a melhor das interpretações se num momento menor de um filme nos pusermos de quatro. Somos tão (?) gays que provocamos "crises cardíacas" aos pobrezinhos que não aguentam ver cavalgar, embora muitos deles, como muitos de nós, não queiram fazer outra coisa. Somos tão (?) gays que nos atribuem uma "hipersensibilidade". Somos tão (?) gays que talvez façamos pensar se não será Obama tão não-branco (?) que o torne incapaz de assegurar a democracia (a americana e a do mundo, que lhe vem sempre agarrada). Está-se mesmo a ver que a afluência ao filme será tão disseminada quanto é forte a publicidade que a censura consegue fazer-lhe. E talvez sejamos tão (?) gays que até na PSP consigamos que a masculinidade seja tão (?) incompatível com a homossexualidade quanto os alhos têm a ver com os bogalhos.
Haja quem nos valha e nos ponha de quatro.
Desde que com vontade consentida e com prazer, obviamente.

sábado, 21 de março de 2009

Ora aí está o Latex...


... e António respondeu ao meu pedido. :-)
Dele, não se esperava outra coisa.
Abençoado!

terça-feira, 17 de março de 2009

Still the Sacred Genocide


António, António, António... onde estás!? Volta depressa, mas mesmo muito depressa, para voltares a desenhar, desta vez com a tromba do Bento.

Venham depois dizer-me que a Igreja não é assassina! É pior... mata em massa!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Elogiar Um Elogio


"A auto-suficiência feminina assinala de alguma maneira uma independência que não é do agrado dos homens, pertence ao reino dos ersatz (termo alemão que se refere a um produto de substituição, de menor qualidade), das compensações, pertence ao reino do coito instrumental que coloca o órgão masculino numa posição subalterna, que o condena a assemelhar-se ao último dos vibradores. (…).
Os anos passaram, a tempestade acalmou, hoje a masturbação tem direito de cidadania, no entanto, ela ainda não é suficientemente desculpada, e é preciso reafirmar muito claramente que todo o interdito está revogado: é lícito, normal, é belo, certo, bom, agradável, conveniente, vulgar, excelente, decente, louvável, meritório, útil, aceitável, feliz, frequente, habitual, corrente, compreensível, excitante, tentador, atraente, cativante, recreativo, interessante, estimulante, reconfortante, apaixonante, tonificante, fortificante, vivificante, exaltante, perturbador, inebriante, embriagante, voluptuário, legítimo, razoável, defensável, desculpável, permitido, legal, autorizado, leal, recto, válido, justificado, correcto, justo, honesto, brioso, natural… masturbar-se, quer se seja homem ou mulher, e sobretudo se se é mulher, pois ainda é muito frequente que as mulheres e as raparigas – nos homens é muito raro – não ousem abandonar-se ao auto-erotismo, quando isso lhes faria muitíssimo bem".

Elogio da Masturbação
Philippe Brenot

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Pornomania ainda


Mas o melhor de tudo isto, é que já vou na quarta notícia do Público em que é reproduzida a "grande e problemática dor de projecção" - ou seja, a imagem que incomodou a labregada policial (já para não falar na permanência da mesma imagem na página web do jornal). Nunca Courbet teve tanta (prositiva!) projecção de que me lembre entre nós e a pergunta que se segue será, inevitavelmente: vamos ter um PSP idiota em todos os sítios onde esteja/ seja lido o Público?

PS - para tentar que o registo fique mais permanente do que do Público, também eu me socorro da ARTÍSTICA imagem.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Fuck Off, Paul!


Definitivamente, depois de termos uma tão boa notícia como esta, ficamos certificados de que há náufragos com muita, muita sorte, como é o caso deste. Ainda assim, sem o ter sabido, o náufrago fez-nos um favor e, com isso, deu-nos algo muito mais importante e digno do que a sua (imerecida) salvação náufraga: termos tido um barco que, sem se ter afogado, nos deu uma história e uma História bem mais importante do que a do Titanic.

Thanks for Your Blessed Waves.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Genetismo


Porque tantas vezes nos esquecemos do que há tanto tempo está já escrito, fica Genet, na sua sempre tão bela escrita. Porque a sua vitória foi verbal, assim o disse; porque da sumptuosidade das palavras se socorreu; porque ter-se socorrido foi uma bênção para nós, se abençoados formos na compreensão de que a masculinidade nunca passou de um mar de fragilidades, de uma prisão de que só escapamos em ballet.


Ei-lo, há mais de 50 (cinquenta!) anos, numa passagem como só ele saberia tecer, como só ele saberia construir a partir da vida que reservada lhe esteve. Para fazer-nos chorar… e por mais.

Culafroy passeava entre lençóis, descalço. Vivia minutos leves como minuetes, feitos de inquietação e ternura. Chegou a aventurar-se num passo de dança em pontas, mas os lençóis formavam paredes suspensas e corredores, os lençóis imóveis e dissimulados como cadáveres uniam-se e podiam encarcerá-lo e estrangulá-lo. (…) Se tocasse o chão apenas com um gesto ilógico do pé esguio estendido, poderia tal gesto fazê-lo soltar-se, deixar a terra e atirá-lo por entre mundos de onde não voltaria, ao espaço onde nada poderia fazê-lo parar. Pousou de planta inteira o pé no chão, para lhe conferir uma segurança maior. (…) Aquela criança que nunca tinha visto um bailarino, nunca tinha visto teatro nem actor, com um sentido divinatório espantoso compreendeu um artigo de página inteira que só tratava de figuras, entrechats, battus-jettés, tutus, sapatilhas, tela, rampa e ballet. Pelo aspecto da palavra Nijinsky (a haste do N, a descida da argola do j, o salto da argola do k e a queda do y, forma gráfica de um nome que parece empenhado em desenhar o impulso com recaídas e pulos no palco de saltador que não sabe sobre qual dos pés pousar) adivinhou a leveza do artista, como um dia virá a saber que Verlaine não pode deixar de ser um nome de poeta-músico. Aprendeu sozinho a dançar, como aprendera sozinho a tocar violino. Dançou, portanto, como tocava. Todos os seus actos foram servidos por gestos, não ao serviço daqueles, mas de uma coreografia que lhe transformava a vida num ballet perpétuo. Rapidamente se pôs em pontas e em todo o lado: no talho, quando apanhava achas de lenha, no pequeno estábulo, debaixo da cerejeira… Punha os tamancos de lado e dançava em cima da erva com peúgas de lã preta, de mãos presas à ramaria mais baixa. Na vida, povoou os campos com uma multidão de figuras que queriam passar por bailarinas de tutu de tule branco, que se mantinham um menino de escola pálido, de bibe preto, a procurar cogumelos e dentes-de-leão. (…)


Nossa Senhora das Flores

Jean Genet, 1951

(Difel, 1987; Trad: Aníbal Fernandes)

Plumíssimas Revoluções


Houve um post que me deu mote. Mote para dizer algumas coisas consonantes com a linha condutora desse mesmo post. Depois, percebi que as coisas que queria dizer estavam já ditas numa produção do país de nuestros hermanos, que ao que parece estão a fazer com que não passe de uma baboseira a velha frase de que dali nem bons ventos, nem bons casamentos, a julgar por provas (como esta, ou como esta) contrárias à baboseira.


Das palavras de Ricardo Lammas e Javier Vidarte, retiradas daqui, me faço valer em apoio à (sobre)vivência tão bem ilustrada pelo limbo entre o babuíno e o ser humano, tão bem apontada como desumanamente erguida sobre a esfarrapada promessa que julgávamos haver na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ora, leia-se Llamas e Vidarte:

…os animais já têm a sua Declaração Universal dos Direitos do Animal desde 1977 [pelo que se sublinha a pertinência dos 30 anos referidos no post-mote]. Quase se poderia dizer, ironicamente, que os animais nos levam uma dianteira, ainda que nós [, pessoas LGBT,] não queiramos a nossa própria declaração de direitos humanos e civis, mas em vez disso queiramos é não conformar-nos com o que vale para toda a gente, porque não é para toda a gente que afinal vale. (…) Observamos um eco distante, um certo paralelismo entre a tónica geral e os conteúdos da Declaração Universal dos Direitos do Animal e o que se vem fazendo connosco e com os nossos direitos, com o modo como nos concedem amavelmente e num acto de grande generosidade – que grande é o coração heterossexista! – estes direitos.

Ao proporem-nos que na referida Declaração Universal dos Direitos do Animal exercitemos a substituição da expressão “animal” por “não-heterossexual”, Llamas e Vidarte deixam-nos a pensar sobre o quanto há por fazer e dão inteira razão ao que no mencionado post-mote podemos ler. Para acabar, deixo ainda palavras dos mesmos autores, que encetam tanto de cruel quanto de belo. Porque talvez na vontade de arrumarmos de vez com a crueldade esteja toda a beleza que nos assiste. Sem mais, nem menos, surge como boa verdade que para que alguém LGBT "alcance o respeito social e não sofra de discriminação, não haja outro remédio senão converter-se em lince. Outras pessoas haverá que se consolarão vendo todas as noites a sua gasta gravação de Os Pássaros, de Hitchcock, sonhando com plumíssimas revoluções".


quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Jorgetes e Manelinhas, vão de retro!


Em estúpida resposta pseudo-desculpabilizante disto

“O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, disse ontem que a Igreja «não tem nada contra» casamentos entre católicos e fiéis de outras religiões, mas pediu que essas uniões respeitem os «valores católicos» das famílias. […] Segundo o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Morujão, a advertência do Cardeal Patriarca é um “justo conselho de realismo” e afastou de qualquer «discriminação ou menosprezo» pelo islamismo”.
Jornal Metro, 15 de Janeiro de 2009

Eu, que sou muito, muito burro, gostava que me dissessem:
1. porque é que alguém que “não tem nada contra” alguma coisa, prefere e profere a supremacia de “outra” coisa?
2. o que são, nestas matérias, a “justiça” e o “realismo” de um conselho?
3. como é que depois de tanto disparate junto e de tão explícitos ataques ainda falam em ausência de “discriminação ou menosprezo”?
4. porque é que há ainda quem não veja que… cada tiro, cada melro?
5. por quanto tempo haverá gente a seguir “conselhos” de semelhante seita?