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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Arejamento Democrático


“… os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha…; [a História de Portugal foi sempre] repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião”.

Jorge de Sena – Sermão da Guarda, 1977

terça-feira, 19 de maio de 2009

Wonderful Fuckers


Clicar aqui é uma experiência maravilhosa. Que nos faz querer dançar imensamente, tremer da cabeça aos pés no arrepio fantástico de estarmos em todo o lado, perceber que o lado menos mau dos Sarkozis talvez sejam as belíssimas roupas das Brunis, gemer de prazer por mexermos os pulsos e todas as outras partes do corpo sem a lembrança da associação de géneros, gritar ao mundo que por muito, mesmo muito que não queiram, a experiência continuará a ser nossa. Todos os dias, a repetirem este. Ou a repudiarem outros como estes.

PS - um agradecimento à amiga S pelo envio.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Razões Actuais em Frágil Texto


Facto: 60 anos tem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Sou relembrado da efeméride pelo bom artigo do Público de hoje, que começa por denunciar tratar-se de um texto actual pelas piores razões. Certamente que sim, dando desde logo que pensar que seis décadas fazem das muitas mudanças que a mesma Declaração desejou um sopro tão opaco quanto lento. Porque contido está nela o ensejo de assegurar o direito a ter direitos, que o mundo continua a mostrar-nos como (tão gravemente) não cumpridos, como necessitados de real consagração no papel e no quotidiano. Neste palco de não-factos continuados, bem refere José Manuel Pureza que mais do que o nunca mais é o exaspero de todos os ainda nãos que o sexagenário documento nos obriga a recordar.
Diz ainda Pureza que toda a Declaração está por cumprir – e pois certamente que o estará, se a esmagadora parte de nós tão pouco a conhece, tão pouco a leu e, se a leu, razões terá tido para esquecê-la ou para menosprezá-la perante o espectáculo desumano que diariamente nos dá o mundo. Dei por mim a pensar que é talvez a ausência de consciência colectiva e pessoal de direitos que em primeira mão ameaça a Declaração. Como dei por mim a pensar que as recorrentes referências da ciência política à necessidade de equilíbrio entre direitos e deveres para que a cidadania se cumpra me colocam reservas: porque de direitos temos ainda visto tão pouco e porque para os deveres temos ainda que encontrar mais profundos significados.
Pensei igualmente que documentos assim só podem servir-se acompanhados de uma inquietude: a de corajosa e perseverantemente nos inquietarmos com o que não pode estar quieto. Não podem estar quietos o olhar e o sentir perante a ininteligibilidade humana, como não podem está-lo perante a evidência do desumano.
Sem isto, a referida Declaração corre perigos de se perpetuar como doloroso e inglório ensaio sobre a cegueira.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Sonho Meu, Sonho Meu




Hoje o sonho foi-me presente. Leia-se: presente de dádiva e presente de agora. Foi um sonho em que o mundo se fazia de homens que eram somente o que a alma lhes ditava. Lindos na basculante atitude do pulso, nas flores que não podiam largar do colo para que a existência lhes perdurasse, nos cigarros imensos que seguravam em boquinhas delicadas, nas plumas que ofereciam à lembrança do meu adereço favorito, no dizerem que estavam comigo a efervescer no que sempre haviam sido e na perpetuação do que continuariam a ser. Lindos no sábio esquecimento do que lhes haviam ensinado sobre “homens” e sobre “mulheres”, lindos a retocarem com batom estes maus ensinamentos. Sábios, muito sábios de si na mimosa rejeição de semânticas que não as deles. Sussurravam a verdade das suas verdades sem que o pulso se importasse, sem que as flores murchassem, sem que a boca ou o cigarro fossem rudes, sem que as plumas deixassem de esvoaçar. Foram falando nas agruras da abominável designação do pulso abominado, foram sorrindo na crença de que verdadeiros são os homens que sustentam as flores quando as desejam. Lembraram-me a rudeza que têm as bocas que não se entregam à delicadeza. Presentearam-me na pose revigorante dos cigarros roubados aos filmes de Marlene, no ar que respiravam, todo feito de plumas e de fumos. Quando permitiram que entre eles me sentasse, soube o quanto me faltou para ser um homem. Faltou-me a recordação mais viva que o quotidiano continua a cortar pulsos quando não admite genuinamente os pulsos. Faltou-me cheirar mais, muitas mais flores. Faltou-me um não mais afirmado à impossibilidade dos cigarros, aqueles cigarros que não querem que eu fume ou que querem que eu fume como querem ver-me fumar. Faltou-me uma boca mais delicada do que a que todos os dias nos põem na boca. Faltou-me um manancial de cores que ainda falta às minhas plumas. Faltou-me ser tão sábio como eles.
Tudo isso me faltou para que o sonho fosse mais um presente (de dádiva) e menos o presente (do agora). Faltou-me mais dádiva de mim e de quem gosto. E faltou-me um pouco mais do que o agora, porque estes lindos e estes sábios estão ainda demasiadamente confinados aos sonhos.