segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Acreditar a acreditar


Eis que mais uma vez a dupla nos presenteia. De um tão magistralmente desenhado universo que podemos esquecer muitas das coisas más que nele existem. Pierre e Gilles levam-me sempre a um torpor que me delicia, que me emoldura os recantos deliciosos da contemplação da imagem, que nos transforma as categorias de que às vezes nos socorremos para limitarmos os horizontes. Sem género estrito, porque em estritas visões já ele não cabe; sem sexualidades impostas, a não ser que a elas nos queiramos - é de direito - impor na força das imagens; sem humanidade retraída, se os sentidos nos transportarem às mais diferentes iconografias humanas (que, com estes dois senhores, sempre embelezadas foram num império de etéreos). Aos dois devo muita da minha convicção nas convicções que me assistem. Ajudaram-me a crescer acreditando mais na possibilidade de dar beleza ao que me desperta o corpo e alma.
E não falo dos corpos delineados, nem da perfeição provocada aos seus elementos, nem do menino ou do homem escolhido como modelo, nem de vulgares desejos que, mesmo sem Pierre e sem Gilles, são os mais fáceis e menos artísticos que podemos viver. Falo dos universos para lá do universo em que os inscrevem, numa constelação de sonhos que nos tranquilizam e apaixonam. Porque neles gostaríamos, pelo menos num ínfimo instante, de assentar um pé para descansar do mundo. Para olharmos para nós como seres que às vezes gostam de ser retocados.
No campo quotidiano de mensagens tão violentamente esmagadoras da beleza que existe no que é humanamente rico, porque fotografado e retocado nas diferenças que deixam de o ser, mais uma vez são, pois é inevitável, muito, muito bem-vindos. Pelo menos para mim, que acredito no poder que o desfolhar de um livro e o deambular pelas imagens que nele se podem imprimir nos ajudam muito a acreditar a acreditar.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Cada vez MENOS católico



Antes de mais: sou baptizado, frequentei a catequese, fiz a primeira comunhão. Antes de mais: como a maior parte dos Portugueses, não escolhi tais incursões – foi o que queriam que eu fizesse, porque os filhos dos amigos dos pais o haviam feito, porque a discriminação era garantidíssima se o não fizesse, porque até ter idade para escolher havia interiorizado que assim teria de ser. Depois escolhi: não entrar mais numa igreja, não permitir que me chamassem católico, sobretudo escolher ser QUASE tão radical como as porcarias que a Igreja sempre se sentiu no direito de dizer de pessoas – não-heterossexuais - como eu. Ainda assim, fui pouco radical, ao que se vê, quando se tem em conta palavrinhas tão bonitas como as que os monsenhores espanhóis andam a proferir. Pois claro está que, também eu, defendo o DIREITO A TER DIREITOS, inclusive o de ser católico. Zapatero não poderia, provavelmente, tê-lo dito mas a Igreja espanhola não está a afastar-se da democracia – está a fazer bem pior: a condená-la. Começo também a duvidar que a convivência ideológica seja profícua, enquanto aberrações destas continuarem a existir num espaço de diálogo (!?).
E claro está que os espanhóis vivem isto, porque apenas eles fizeram na Europa dos últimos tempos o que mais ninguém se atreveu a fazer. Ponha-se Portugal ao mesmo nível (ok, passo a ingenuidade) e vamos ver o que dizem os nossos monsenhores! Há-de ser uma bênção! Sim, sim…

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Margarida Rebelo Kadafi


Na sua crónica de domingo passado, dia 9, no JN, Margarida Rebelo Pinto surpreende-nos verdadeiramente. Porque vai ainda mais longe na sua tão imensa capacidade de envergonhar mulheres que se prezem. Ou que até nem se prezem, para quedarem menos prezadas do que já possam estar. O mote é dado pela vinda do ditador Kadafi a terras lusas, tema que a incomoda (!?) pelo carácter ditatorial da figura dos homens que, em subserviente imitação do poder do chefe, são sempre muito maus para as mulheres.
Sem necessidade de citar o resto (que mais não é do que um resto, sabe-se lá de quê), lemos que há uma: “cáfila de 17 simpáticas porém impotentes camelas [isto é: 17 mulheres que acompanham o ditador na sua visita a Portugal] que tal como nós assistem de patas dobradas às brincadeiras dos donos do mundo. Resta-me a vaga esperança de (…) sermos mais bonitas do que elas e de não ruminarmos no passado das nossas vidas afectivas onde sapos e camelos já tiveram o seu triste papel”.
simpáticas porém impotentes” – ó Margarida: eu, como homem, proponho-te ires viver para a Líbia e perceberes que simpatia e impotência são coisas que apenas fingiste na tua vida inteira, mas que não sabes o que são;
camelas” e “patas” – ó Margarida: eu, como homem, encolhi-me e li várias vezes, mas sim, tive que me render ao facto de que foi o que escreveste, o que faz de ti muito pouco simpática e demasiado não impotente;
como nós assistem de patas dobradas” – ó Margarida: eu, como homem, não sei de quem é que estás a falar. Das pessoas que, como tu, até se dobram ao que convém para vender “livros” (se não fosse a mera compilação de papel nunca lhes chamaria isso)? Das pessoas que, como tu, e por muito que mereçam, não me atrevo a dizer que têm “patas”? Das pessoas que assistem mas nada fazem de importante para mudar as coisas? Sim, deve ser. De mim e de outras pessoas que conheço não estás certamente a falar;
esperança [tenho mesmo medo é que não seja tão vaga como isso!] de sermos mais bonitas do que elas” – ó Margarida: eu, como homem, ainda tenho a esperança de não ter esperança de ser mais bonito do que elas. Tu és? Se sim, avisa, querida, porque eu acho-te mais feia (e mais do que nunca) do que quem quer que seja. Mesmo as “camelas” me entusiasmam mais e tenho menos medo das “patas” delas do que dos teus “pés” (vês como até sou bonzinho para ti?);
não ruminarmos no passado das nossas vidas afectivas” – ó Margarida: eu, como homem, sei que o passado das “camelas”, como lhes chamas, nem afecto tem, na maior parte das vezes. Se tem, minha querida, ao menos que “ruminem” nele, se lhes fizer bem, já que não vendem livros como tu, não têm hipótese de comprar os sapatos com que enches os “pés”, não sabem a sorte que tens na tua “beleza” e quando se “dobram” não costumam ter a liberdade que tens tu quando te “dobras”;
onde sapos e camelos já tiveram o seu triste papel” – ó Margarida: eu, como homem, acho que se tu o dizes… elucidas-nos! Não é que isso contribua no que quer que seja para a minha (in)felicidade, mas a gente sempre fica a saber com que animais (caíram as aspas, porque é inevitável) andaste tu!
Ó Margarida: eu, como homem, apenas te pergunto quem é que tem, afinal, veia de ditadura?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Abrir os braços à la La Féria!


Sinopse (tenha muito, muito, mas mesmo muito cuidado ao ler!!!!!!!):

"Música no Coração" é a adaptação para teatro do filme com o mesmo nome, de 1965. Conta a história de Maria, uma noviça perceptora dos sete filhos do Capitão Von Trapp. Maria ensina as crianças a expressarem as suas emoções através da música e da dança, o que faz com que o Capitão fique encantado pela noviça.


Ela rebenta de felicidade contida, senhoril (ai!), delicada (ai!), asséptica (ai! ai!), controlada de tão necessariamente altruísta (e o agudo já se esgotou!). Esgotou-se para as próximas semanas a plateia do invicto teatro (ah, pois, é verdade que é invicto…) para a ver contida, senhoril, asséptica e com tantas outras femininas (???????) virtudes (???????) tão ensombradas por um senhor (volta o agudo – ai!) que não convence senão a saloia (mas afluente) plateia. Que é a que nos enche os dias, de uma espuma que não fala contra as mulheres que morrem, em metáfora mas mais ainda em realidade, na plateia que é a do teatro doméstico dos dias correntes da nação.
La Féria é o que é. La Féria pode ser o que é. La Féria não faz mais do que a sua intenção (sublinhe-se: intenção) artística (!?!?) lhe dita e lhe recheia bolsos. Mais dita uma autarquia – depois de uma imensa e imposta cruz no espaço público da minha cidade a fazer glória de um barbudo (que descoloraram) Superstar, depois de uma barricada que se reduziu ao miserável (perdão: indiferente) espanto por parte dos senhores (!?!?) que levam (sublinhe-se: levam) as suas (sublinhe-se: suas) senhoras (!?!?) ao teatro que agora é dos espiritualmente parcos bolsos de quem a ele ainda se dirige. Algumas filhas, alguns filhos, a aprenderem o pepino, que se torce (e muito!) desde pequenina e de pequenino, que há-de impor-se (literal e simbolicamente) nos supostos sonhos da vida conjugal que, mesmo que não queiram, estas filhas e estes filhos terão de construir no futuro. Não, a geração não é rasca, é estúpida. E de estúpida se fará perigosamente encantada com os braços que a protagonista abre ao Porto do cimo do teatro que se supunha nosso. De estúpida se fará perigosamente inspirada no senhor que tem (sublinhe-se: tem) uma senhora.
Não gosto, geralmente, de ir ao teatro. Mas do que não gosto mesmo é de ter que me cingir a semelhante parolice tão potencialmente machista, chauvinista, retrógrada, apática, pronta a explodir no esplendor masculinizado de Portugal. Do que não gosto mesmo é de não ter voto na matéria sobre o meu (!?!?) teatro se, ainda que não previsivelmente, lá me apetecer ir. Do que não gosto mesmo é destas palhaçadas que ninguém contesta a alimentarem o hino que passo os dias a tentar esquecer.
Contra os canhões, berrar, berrar. E vomitar esta parolice. Para uma galáxia que tenha feito o pior dos males ao nosso Universo. Mesmo que tal galáxia seja a pior das nossas inimigas… nem tal maleita se lhe deseja!

domingo, 9 de dezembro de 2007

Uma carta para o deus

Esquisito deus:
Escrevo-te porque sei que sou muito pequenino quando Amo, mas já não acredito no Pai Natal. Desculpa chamar-te esquisito, mas também não costumo confiar em ti. Chamam-te sempre com uma letra grande, mas eu chamo-te deus, com letra pequenina, porque é sempre melhor. Porque tenho medo que o teu concorrente faça das dele, como algumas vezes fez na minha vida.
Venho só pedir-te coisas que acho que me podes dar. Pode ser que assim me deixes menos desconfiado de ti. São coisas boas, que eu gostava de ter, se tu me deixares. Mas que eu acho que posso ter se eu me deixar ter e se tu estiveres ao meu lado, porque sempre achei que és tão pequenino como eu. Se fores muito grande, eu já não gosto tanto de ti.
Queria, primeiro, que me dissesses porque é que eu não entendo o que não se pode entender. Queria que me deixasses dar sempre muitos beijinhos ao menino da minha idade que costuma ficar aqui em minha casa. Se tu existires, porque dizem que tu sabes tudo, deixa-me só não perder os abraços apertadinhos que ele me dá. Queria que me deixasses saber que ele cheira sempre muito bem. Mas olha, não me deixes saber porque é que ele nunca deixa de cheirar bem. Está bem?
Queria, também, que me deixasses entrar no novo ano com mais vontade do que já tenho de dar mais beijinhos ao menino que vem cá a casa, de conversar muito contente com ele, de o ajudar a tratar de umas feridas pequeninas que ele tem, de lhe pedir para ele me ajudar a tratar das minhas, que são tão pequeninas como as dele. Se sabes tudo, ensina-me só um bocadinho a não ter que ser ensinado.
E também queria que lhe desses a ele a alegria de conseguir o que te pediu todos os anos. Ele só te pediu para ter alguém tão pequenino como ele para lhe dar beijinhos, o ajudar, conversar com ele e se esquecer que tem feridinhas. Isso tu não sabes, mas ele tem as pestanas mais lindas do mundo. E elas são ainda mais bonitas quando me dá beijinhos, quando me abraça, quando conversa comigo e quando nós tratamos das feridinhas que nós temos.
Se me deres isto, eu se calhar acredito mais em ti. E até podes deixar de ser esquisito. Eu acho que nunca te vou chamar com uma letra grande, mas posso gostar mais de ti. E olha, não te importes se eu gostar menos de ti do que dele. Está bem?