segunda-feira, 28 de julho de 2008

Instantes há de inveja...


... de quem escreve assim. Instantes que logo se desfazem na lembrança de quem me dá a substância mais viva a estas tão, mas tão belas palavras.


PRESÍDIO

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
Às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
É também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
Pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Mudam-se os tempos, as vontades nem por isso.


As mulheres, quando trabalham juntas, só dão problemas.

Foi o mote para uma violenta discussão em local de trabalho. E não, não foi violência doméstica, foi pública. Com o entristecimento de:


1. saber que a maior parte das mulheres (!) que defendeu isto são psicólogas;
2. ter sido eu, único homem (!) presente na discussão, a opor-me com violência à violência do que proferiram;
3. as colegas exercerem a sua profissão em evidente jeito de discriminação no espaço que não é o do café (e já mau era que o fosse) mas o da clínica;
4. ter reforçado eu, em carne viva, a ideia de que assim se espelha o mundo que insiste mesmo em não mudar.

No final, chave de ouro (não ouvi, mas os olhares e as posturas falam po si):
disse o que tinha dito porque sou gay.
Vou dormir, oxalá que muito.
PS - imagens como a deste post são raríssimas e provam que os homens quando trabalham juntos não dão problemas nenhuns. Mesmo nenhuns!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Arre, estúpido!!!


Estupidez é não perceber que o senhor que escreve isto é imensamente estúpido! Provavelmente, porque foi educado por "heterossexuais" estúpidos. Se não o foi, dê mais dignidade à imagem de quem o educou. A gente até só pede que faça uma "fórcinha" para denunciar um bocadinho a estupidez de quem o deseducou. Pode ser que isso contribua para o acharmos menos estúpido. Ou então vá ser estúpido para outro sítio.
Acresce o absolutamente não-estúpido comentário do meu adorado MiMi, que comigo vai caminhando cada vez mais terna e empenhadamente nestas denúncias:

Se estivessemos perante um simples colaborador do Expresso a assinar tal artigo ainda seria dado o benefício da dúvida mas sendo o caso do Director a escrever um artigo de opinião, algumas questões relevantes devem ser levantadas. Primeiro, sobre o artigo, o Sr. Henrique não domina o tema, não fez investigação jornalística e limitou-se a escrever um artigo de rotina, ao bom jeito do jornalista que não se empenha no que faz. Segundo, sendo sua opinião a vigente na redacção desse jornal conclui-se que é a da estupidez de opiniões que domina o vosso trabalho neste momento. Terceiro, e em remate final, o Expresso confessa-se mais conservador que nunca e que de "moderno" apenas tem o aspecto gráfico. "Antes que venha" o Sr Henrique (chamar-lhe jornalista não faz sentido) voltar a escrever sobre um novo tema com a mesma profundidade que escreveu este, tão pessoal, e nele incluir tamanha estupidez ou "coisas do estilo", talvez os jornalistas do Expresso devessem "debater" (verdadeiramente) para mostrarem o quão próximos estão das "opiniões" do seu director e para com ele não serem confundidos. Em nome do bom jornalismo que se quer numa "democracia moderna" que não a dele.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Bota pra lá a censura!


Uma ideia louvável, na qual podem ter voz activa.
Do ideal ao real, nem sempre a distância tem que ser infinita.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Guernica (minha)


Sendo facto que não sou, de modo algum, um apreciador de museus, é também facto que foi este o quadro que me fez chorar. Numa louvável forma de apresentação que vale a pena ser vista aqui. E a quem interessar, uma boa leitura sobre a obra aqui.
Comovam-se. Ou limitem-se a olhar. Porque a mensagem continua a ser mais do que útil.

Com um especial agradecimento a O. pela incitação à revisitação.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Nossa Rainha


Este ano, Manuela Ferreira Leite aceitou o convite para ser Rainha da Marcha do Orgulho LGBT do Porto. Mesmo estando eufórica pela antecipação do acontecimento, concedeu-me esta entrevista, que tomei a liberdade de vos transcrever.

Porque acedeu, Manela, a ser Rainha da Marcha?
Porque não sou suficientemente retrógrada para ser contra as ligações heterossexuais, aceito-as, são opções de cada um, é um problema de liberdade individual sobre o qual não me pronuncio.
Fala sempre no masculino…
Ah sim, tem razão. De facto as mulheres merecem toda a primazia do discurso. Desculpe. Prometo que farei jus à minha condição de Rainha gritando por toda a cidade invicta no feminino, no masculino e no que não cabe nem numa nem noutra destas designações.
Diga-nos, Manela, porque se pronuncia, afinal?
Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto àquilo que é uma relação de duas pessoas de sexo diferente igualmente ao estatuto de pessoas do mesmo sexo.
Mas isso não lhe parece algo homossexista ou algo heterofóbico?
Sim, mas olhe que eu sempre tive estratégia política, como sabe! O que verdadeiramente acontece é que estou cansada do que já todos sabemos: que os heterossexuais não tenham de que queixar-se. Ser Rainha é um privilégio em prol da celebração de quem nunca é reconhecido. Ai desculpe, …, de quem nunca é reconhecida ou reconhecido. Acha que um dia no ano compromete o que as mulheres e os homens heterossexuais conseguiram e mantêm ao longo de tantos séculos?
Não, não, pelo contrário. Isso é, realmente, uma posição política digna de uma Rainha.
É a única posição que me cabe como Rainha! Admito que esteja a fazer uma discriminação homossexista ou heterofóbica, como disse, mas porque é uma situação que não é igual. A sociedade está organizada e tem determinado tipo de privilégios, de regalias e até medidas fiscais no sentido de promover a família heterossexual. Pois se assim é, devemos pensar que o que faz falta é promover o afecto, a adopção e, quem sabe, a procriação, mas apenas desde que desejada, consciente e possibilitada a todas as pessoas independentemente da sua orientação sexual ou identidade de género. É uma realidade. Chame-lhe o que quiser, mas chame o mesmo nome às pessoas e aos laços que estabelecem e esqueça essa coisa aborrecidíssima de estarmos a falar de homens, de mulheres, de orientações sexuais e de identidades de género. Uma coisa é casamento, outra coisa é qualquer outra coisa. O que significa que todas e todos devem ter acesso a ele e que quem não o quiser deve poder escolher rejeitá-lo. Não deve é deixar de escolhê-lo ou rejeitá-lo por causa de rótulos. Isso está mais ultrapassado do que a minha imagem. Por favor!
Quer dizer mais alguma coisa às pessoas LGBT do país que ambiciona governar?
Quero dizer-lhes que reconhecer o que é óbvio só me traz votos. Só se seu sofresse de uma debilidade mental é que seria incapaz de reconhecer que tudo o que lhe disse só pode beneficiar um político, ai, desculpe, uma política, ainda por cima que se designa social-democrata. Isto é ganhar votos e a minha estratégia política nunca poderia deixar de atender a isso.
Podemos ainda saber como vai vestida?
Estou em crer que me vai ser difícil ter um guarda-roupa à altura das imagens animadíssimas e renovadas que muitas vezes invejei nas Marchas do Orgulho. Naturalmente que se não tivesse aceitado ser rainha, iria vestida com o que tenho, a acompanhar a sobriedade de muitas outras pessoas que também sempre admirei nas Marchas. A ver vamos. Mas é verdade que a pluma está a tentar-me mais do que a governação do país.

Disse à Manela, no final da entrevista, que me senti a mentir. Mas a seguir também lhe disse que ao menos eu sabia que era mentira. Ao contrário de muitas outras pessoas que sabem que não estão a mentir quando dizem as mais bárbaras palavras. Não sei porquê, ficou a pensar nesta minha observação final. Não percebi…

domingo, 6 de julho de 2008

A Marcha, I



Marcho pelas flores que quero ver
Nascidas do desterro de outras flores
Que mesmo murchas são mais frescas
Do que a secura de dizer não haver dores

Eu preparo uma marcha que é de cores
Sobre o negro da vergonha e do esquecer
Que outras marchas houve para amores
Nada tristes mas apenas impedidos de dizer

Marcho pela vontade de alegria
A gritar a alegria das vontades
De aqui estar a pedir que venha o dia
Que dá luz ao desejo das verdades

Eu preparo uma marcha que é de mim
Para que de mim deixe de ser
Em que só as flores se podem ver
Sem deixar que os desterros nos afoguem
E que os dizeres nos fujam sem as pétalas
Da verdade, do desejo e do querer